Estudo Inovador sobre a Interação entre Nervos e Imunidade
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com a Universidade Harvard, avançaram na compreensão da relação entre os sistemas nervoso e imunológico, destacando uma interação profunda que vai além do que se sabia até agora. De acordo com o estudo, momentos de estresse e depressão não apenas afetam a saúde mental, mas também provocam alterações significativas na expressão genética de células de defesa do organismo.
A pesquisa revelou que, em situações de estresse, genes que normalmente são expressos apenas em neurônios também estão superativados nas células do sistema imunológico. Isso sugere que a comunicação entre o cérebro e o sistema imunológico é mais complexa do que se imaginava, abrindo novas perspectivas para a investigação de biomarcadores relacionados à depressão e outros transtornos mentais.
“Analisando dados disponíveis publicamente, encontramos que genes associados ao sistema nervoso estão ativados de forma intensa em leucócitos de pacientes com depressão maior. Posteriormente, essas descobertas foram confirmadas em experimentos com camundongos que sofreram estresse crônico, algo que nos surpreendeu bastante”, comentou o autor principal do estudo, Haroldo Dutra Dias, em entrevista sobre a pesquisa publicada na revista Translational Psychiatry.
Genoma e sua Diversidade Funcional
Cada ser humano possui um genoma único, cuja sequência de material genético determina as funções das células. A diferenciação entre neurônios e leucócitos, por exemplo, advém da ativação ou desativação de determinados genes, dependendo da condição ou ambiente onde essas células se encontram. O estudo, que teve o apoio da Fapesp, demonstrou pela primeira vez que o gene PAX6—tradicionalmente vinculado à formação de novos neurônios—também desempenha um papel nas células de defesa sob condições de estresse.
A superexpressão do PAX6, juntamente com outros três genes (NEGR1, PPP6C e SORCS3), foi identificada tanto em humanos quanto em camundongos sujeitos a estresse e episódios de depressão maior. A parte experimental da pesquisa foi realizada na Universidade Harvard, enquanto a análise dos dados humanos foi conduzida na USP.
Metodologia de Análise Avançada
Para investigar o transcriptoma de humanos e camundongos, os pesquisadores utilizaram a técnica de estudo de associação genômica ampla (GWAS), combinada com sequenciamento de RNA (RNAseq). Esse método integrativo permite comparar genomas e transcriptomas, facilitando a identificação de marcadores biológicos associados a doenças específicas.
“Esse trabalho de ciência básica não somente descobre potenciais biomarcadores para a depressão, mas também sugere novas abordagens terapêuticas. Além disso, convida a uma reavaliação dos conceitos sobre a função do gene PAX6 no sistema imunológico e a complexidade da interação entre os sistemas neuroimune”, destacou Otávio Cabral-Marques, coordenador da pesquisa e professor da Faculdade de Medicina da USP.
Implicações Futuras e Possíveis Avanços
Embora o estudo tenha se concentrado em dados relacionados à depressão maior, a superativação dos genes nas células de defesa pode ser observada em outros problemas de saúde mental. “Vários estudos já indicaram a forte relação entre depressão, distúrbios mentais e o sistema imunológico. Esse achado é apenas o começo de uma nova linha de pesquisa que pode se estender a outros transtornos, como bipolaridade, esquizofrenia e ansiedade”, explicou Dias.
Os pesquisadores ainda não exploraram a fundo o mecanismo que leva à superexpressão do PAX6 nos leucócitos. Foi notada uma curva de expressão do gene, que se intensifica nos primeiros oito dias após o estresse, estabilizando entre o 8º e 18º dias—período em que os efeitos comportamentais do estresse começam a manifestar-se nos camundongos. Cabral-Marques enfatiza que é prematuro caracterizar o PAX6 como um vilão, uma vez que a relação entre estresse e a superexpressão do gene ainda carece de elucidação.
“No experimento, observamos que as células mieloides, que atuam na defesa inata, se multiplicaram. Não se pode afirmar que o gene PAX6 induza estresse. Importante lembrar que um grupo de células mieloides também pode suprimir a resposta imunológica”, conclui. A pesquisa abre novas perspectivas sobre a interação entre saúde mental e o sistema imunológico, enfatizando a complexidade do tema e a necessidade de investigações adicionais.


