Feminicídios em Sorocaba: Uma realidade alarmante
No município de Sorocaba, em São Paulo, o início de 2026 já deixou sua marca negativa com o registro de três feminicídios nos primeiros 18 dias do ano. Esse número é um reflexo das falhas nas políticas de combate à violência contra a mulher e das desigualdades estruturais que permeiam a sociedade. O caso mais chocante ocorreu no dia 18, quando Tamara, de 30 anos, e Giovanna, de 32 anos, foram brutalmente assassinadas por Antônio Batista de Lima, ex-companheiro de Tamara. Além disso, a primeira vítima do ano foi uma mulher de 53 anos, morta também a facadas, com seu companheiro como principal suspeito.
Infelizmente, a situação em Sorocaba não é um caso isolado, mas sim um espelho do que se passa no estado de São Paulo e no Brasil como um todo. Durante o ano passado, foram registrados 233 feminicídios no estado, com 128 ocorrendo no interior. A cada dia, quatro mulheres perdem a vida de forma violenta, evidenciando o caráter patriarcal e machista que ainda prevalece em nossa sociedade.
Medidas protetivas e a dura realidade das mulheres
Uma preocupação adicional é a quantidade de medidas protetivas emitidas, que, segundo a Delegacia da Mulher de Sorocaba, superou a média de cinco por dia entre janeiro e julho do ano passado. Isso significa que muitas mulheres estão rompendo barreiras e buscando proteção contra a violência doméstica. No entanto, é fundamental lembrar que existem aquelas que, por diversas razões, não conseguem acessar esses direitos.
Além do feminicídio, a violência contra as mulheres em Sorocaba se manifesta de maneira brutal através do estupro. Em 2022, a cidade registrou 234 casos, sendo 174 deles de estupro de vulnerável. Esses dados revelam que, em média, mais de uma pessoa de população minoritária foi estuprada por dia, o que torna a situação ainda mais alarmante.
A ineficácia das políticas públicas e a necessidade de mudança
É inaceitável que Sorocaba, que conta com uma Secretaria da Mulher, tenha investido mais de R$ 2,1 milhões em salários para suas 11 funcionárias sem obter resultados efetivos na proteção das mulheres. Após o duplo feminicídio, a secretaria se limitou a divulgar informações sobre um “Mercado Solidário”, ignorando a gravidade da situação.
A Delegacia da Mulher, localizada no bairro elitizado do Campolim, acaba se distanciando das áreas mais afetadas pela violência. Muitas mulheres, dependentes financeiramente, não conseguem arcar com o custo do transporte para buscar ajuda, sem mencionar a saúde física e emocional que muitas vezes é comprometida após situações de violência.
Embora haja um Centro de Referência da Mulher (CEREM) na cidade, a equipe técnica disponível é insuficiente para atender a população de mais de 750 mil habitantes. Os atendimentos dependem de agendamento, e as esperas podem ultrapassar um mês. A instalação do aplicativo “Protege Mulher”, que visa ajudar a acionar a polícia em situações de risco, é um passo positivo, mas ainda longe do ideal.
O ciclo da violência e suas consequências
Os dados alarmantes revelam um ciclo de violência profundamente enraizado na sociedade. Desde a infância, as mulheres são ensinadas a tolerar violências, desde microagressões até formas brutais de agressão. Muitas se veem forçadas a permanecer em relacionamentos abusivos em nome de ideais sociais, como a proteção aos filhos. Esse ciclo se inicia com agressões sutis que evoluem para violências físicas e emocionais, criando um ambiente de controle e submissão.
A dependência econômica das mulheres também contribui para a continuidade desse ciclo. Muitas são relegadas a funções de trabalho não remunerado, e mesmo quando acessam o mercado de trabalho, enfrentam salários desiguais e barreiras à ascensão profissional. As mulheres negras, em particular, são as mais afetadas por essa realidade de injustiça social.
Organização popular e a luta contínua contra a opressão
Diante desse cenário alarmante, surge a necessidade de organização coletiva. Após a divulgação de casos de violência, mulheres de Sorocaba começaram a se unir para denunciar agressores que permanecem impunes. Contudo, experiências anteriores mostram que iniciativas isoladas tendem a se esgotar com o tempo. A luta pela mudança deve ser contínua e organizada.
O Movimento de Mulheres Olga Benario tem demonstrado que a luta não se limita a questões individuais, mas deve abordar as causas sociais e econômicas da opressão. A revitalização de espaços públicos, como o Parque Ouro Fino, após um crime, é um exemplo de como a mobilização pode levar a melhorias significativas. Através de panfletagens, atos e cobrança direta das autoridades, é possível conquistar um espaço mais seguro para todas.
As conquistas obtidas são fundamentais, mas devem ser vistas como parte de um movimento mais amplo. A opressão das mulheres está intrinsecamente ligada ao sistema capitalista. Para que realmente possamos superar o machismo, é necessário também enfrentar as estruturas sociais que o sustentam. Portanto, o chamado é para todas as mulheres de Sorocaba: não enfrentem essa luta sozinhas! Juntas, podemos transformar o medo em força e a indignação em mudança concreta.


