Transformação no Cuidado em Saúde
Recentemente, a Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS), em colaboração com o Instituto Caldeira, promoveu um evento que teve como foco a interseção entre inovação, tecnologia e inteligência artificial na Medicina. O encontro, realizado no sábado, 7 de fevereiro, reuniu um público diversificado, incluindo médicos, gestores e especialistas, para discutir os desafios e as oportunidades que estão redefinindo o cuidado em saúde, particularmente nos ambientes hospitalares.
Na sessão de abertura, Thomás Azeredo, coordenador de Novos Negócios do Instituto Caldeira, enfatizou a importância da parceria com a AMRIGS para fomentar debates construtivos. “Até 2026, planejamos expandir nossas áreas de atuação, com um foco especial no setor da saúde, tornando-o uma das principais verticais a serem desenvolvidas no próximo ciclo”, anunciou Azeredo.
Dr. Otávio Cunha, coordenador do Núcleo de Inovação e Tecnologia da AMRIGS, destacou o valor do encontro para promover uma escuta ativa e troca de experiências entre colegas médicos de diversas regiões e realidades. “A AMRIGS se posiciona como uma entidade que reconhece a importância da tecnologia na Medicina, sempre que sua implementação se dê de forma sustentável e fundamentada em evidências científicas, trazendo benefícios concretos para os pacientes”, afirmou.
A discussão sobre a transformação acelerada da prática médica em razão do avanço da inteligência artificial foi um dos principais temas abordados. Dr. Gerson Junqueira Jr., presidente da AMRIGS, comentou sobre a clara mudança de paradigmas na profissão médica. “Estamos vivendo um descompasso entre a Medicina tradicional e a contemporânea. Médicos e outros profissionais de saúde não somente irão integrar a inteligência artificial em suas rotinas, mas também provavelmente desenvolverão uma afinidade crescente por essas ferramentas. Isso afeta profundamente a essência da Medicina, a forma como atendemos e a formação acadêmica, incluindo a Residência Médica. É fundamental refletirmos sobre como ensinar técnicas de anamnese e procedimentos cirúrgicos em um contexto onde a IA é parte integrante do processo”, afirmou.
O vice-presidente da AMRIGS, Dr. Paulo Morassutti, trouxe à tona dados que indicam significativas mudanças geracionais, ligadas ao uso excessivo da tecnologia e suas interferências no desenvolvimento cognitivo. “Estamos preocupados com o acesso cada vez mais precoce e intenso aos dispositivos móveis. Já observamos que uma geração anterior apresenta funções mentais mais desenvolvidas em comparação com a atual, o que é inédito na evolução humana”, alertou Morassutti.
Os desafios clínicos e assistenciais também foram abordados por Dr. Guilherme Napp, diretor Científico e Cultural da AMRIGS, que destacou a importância do digital na reabilitação de pacientes com doenças crônicas. “A recuperação da mobilidade desses pacientes é um momento crítico, mas também apresenta grandes vulnerabilidades. Pesquisas da Califórnia mostram que o uso de sensores de pressão pode monitorar a marcha, identificando áreas de risco para lesões e chamando o paciente para avaliação precoce, reduzindo a sobrecarga e prevenindo complicações”, explicou.
Tendências e Futuro da Saúde
Dando início ao primeiro bloco do evento, Dr. Otávio Cunha apresentou a palestra intitulada “Visão dos médicos – O que os hospitais esperam do corpo clínico para 2026?” Ele trouxe reflexões sobre o papel do médico em um cenário cada vez mais pautado por dados, eficiência e trabalho em equipe. Dentre os desafios assistenciais mencionados, destacaram-se a fragmentação das informações clínicas e a baixa interoperabilidade entre os sistemas, resultando na multiplicidade de prontuários e plataformas, o que compromete a segurança do paciente e a continuidade do cuidado.
“Há uma sobrecarga significativa na parte operacional. O excesso de tarefas administrativas que recaem sobre o corpo clínico diminui o tempo destinado à assistência direta, aumentando o risco de desgaste profissional e burnout”, explicou. Na sequência, a palestra “IA na Saúde: Revolução ou Hype?” propôs reflexões sobre os limites, riscos e oportunidades do uso da inteligência artificial. O médico e pesquisador Roger Daglius Dias destacou que discutir inovação envolve, necessariamente, compreender a mudança no papel dos profissionais de saúde.
“Não podemos falar de IA e tecnologia sem considerar o impacto direto sobre nossa prática. O papel do médico evoluiu ao longo do tempo e está mudando rapidamente. Antes, a formação se restringia a áreas como assistência, pesquisa ou gestão. Hoje, o cenário se ampliou significativamente, e é exatamente esse novo contexto que devemos explorar”, ressaltou.
Aplicações Práticas da Inteligência Artificial
No segundo bloco, a apresentação “Como vencer na saúde com tecnologia, dados e IA” trouxe estratégias para transformar informações em decisões qualificada, exemplificando a integração entre dados assistenciais e administrativos. O engenheiro mecânico Marcelo Saraiva destacou que a transformação digital na saúde e nos negócios depende da qualidade da informação, alertando que investimentos em automação sem uma base sólida de dados tendem a aumentar os erros e comprometer os resultados.
“Sem dados bem estruturados, não faz sentido automatizar processos. Você acaba apenas automatizando os erros, sem gerar resultados efetivos. Atualmente, cerca de 40% dos ativos parados no Brasil apresentam eficiência média, indicando que ainda temos um potencial significativo inexplorado”, observou.
Por fim, Dr. Robson Verly, especialista em IA Médica, realizou uma análise comparativa sobre diferentes soluções de inteligência artificial, abordando limitações e critérios para a adoção de ferramentas mais adequadas às demandas do setor da saúde. Na etapa final, Dr. Hugo Mallmann apresentou um caso real do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), evidenciando a aplicação da IA na prática hospitalar, com melhorias em eficiência, segurança e organização do atendimento.
“A discussão não envolve apenas o uso de ferramentas, mas o papel ativo do corpo clínico na definição de prioridades e critérios de decisão, especialmente em áreas sensíveis como diagnóstico por imagem. Se não participarmos ativamente desse processo, corremos o risco de perder o controle sobre ele. Mais importante ainda, o médico poderá ser excluído desse ciclo”, contextualizou.
O evento gerou oportunidades para perguntas e debates, e um aprendizado central foi que a inovação, os dados e a inteligência artificial podem agregar valor à prática médica quando integrados a ela com embasamento técnico, participação ativa dos profissionais e um foco inabalável na segurança e no cuidado com o paciente.


