Decisão Judicial Promove Autonomia aos Povos Indígenas
Em um marco histórico, os indígenas do Xingu, no Mato Grosso, ganharam o direito legal de explorar o turismo em suas terras sem a necessidade de autorização da Fundação Nacional do Índio (Funai). A sentença, proferida pela Justiça Federal em novembro, beneficia sete etnias locais e permite que recebam turistas para atividades como pesca esportiva, rituais de dança e palestras conduzidas por caciques. Essa conquista, divulgada pela revista VEJA, representa um avanço significativo na autonomia dos povos indígenas em relação à gestão de seus recursos naturais.
Apesar do avanço, a Funai imediatamente recorreu da decisão, alegando que o juízo apresentava equívocos e não levava em conta o desejo das lideranças indígenas. Em nota, a instituição manifestou preocupação com um possível “desarranjo institucional”, que poderia fomentar disputas internas entre os próprios povos indígenas.
No entanto, o advogado Ubiratan Maia, que representa as comunidades, refutou as alegações da Funai, afirmando que “não há risco de conflitos sociais sérios entre as etnias do Parque Indígena do Xingu”. Maia classificou as afirmações da Funai como inverídicas, reforçando que a decisão judicial promove um direito fundamental dos indígenas.
Juiz Reafirma o Direito de Autonomia
O juiz federal César Augusto Bearsi, da 3ª Vara de Mato Grosso, ao analisar o recurso da Funai, ressaltou que os povos indígenas têm plena capacidade de decidir sobre a exploração de suas terras. “A legislação é clara ao reconhecer que as comunidades indígenas possuem o direito de decidir coletivamente sobre o uso de suas terras e recursos”, enfatizou o magistrado, destacando a importância do respeito às tradições e formas de organização social dos grupos.
Além disso, o juiz também concordou que a exploração do turismo nas aldeias não contraria as convenções internacionais que garantem os direitos indígenas, o que reforça a legitimidade da ação. Para Ubiratan Maia, esta é uma vitória crucial para os índios do Xingu, que há muito tempo buscam utilizar suas terras para diversas atividades, como agricultura e mineração, mas frequentemente enfrentam obstáculos relacionados à supervisão da Funai.
Exemplo de Autonomia em Outras Regiões
Essa conquista do Xingu se assemelha a outra decisão recente do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, que autorizou a exploração mineral em terras indígenas dos Cinta Larga, situados em Rondônia e Mato Grosso. Contudo, essa autorização impôs a condição de que a exploração fosse coordenada pelas próprias comunidades, respeitando critérios ambientais, sociais e legais. O ministro estabeleceu um prazo de dois anos para que o Congresso Nacional legisle sobre o assunto, visando regulamentar a questão de forma mais ampla.
Essas decisões judiciais representam uma mudança significativa no controle sobre os recursos naturais nas terras indígenas, sinalizando um movimento em direção à autonomia e ao reconhecimento dos direitos das comunidades locais. A luta dos povos indígenas por maior controle sobre seus territórios e práticas culturais é um tema que continua a ser debatido e que, certamente, terá repercussões importantes no cenário político e social do Brasil.


