A Mostra que Transforma a Percepção do Público
Em cartaz até 16 de maio no Museu FAMA, localizado em Itu, na Região Metropolitana de Sorocaba, a exposição “RECONSTRUINDO Cartografias Afetivas” apresenta uma experiência única que convida os visitantes a refletirem sobre a intersecção entre arte contemporânea, ecologia e a sensibilidade feminina. A visitação ocorre de quinta a domingo, das 11h às 17h, e a proposta é realizada em parceria com o Instituto Italiano de Cultura de São Paulo (IICSP).
A mostra reúne obras de cinco artistas do Coletivo Biohabitantes: Yto Aranda, Marina Bellino, Klaudia Kemper, Soledad Neira e Clara Salina, representando Brasil, Chile e Itália. Cada obra é uma expressão de criatividade que busca traçar uma cartografia afetiva, desafiando o público a reconsiderar sua relação com o planeta e a fragilidade dos equilíbrios ambientais.
Conforme destacado pelo museu, a proposta da exposição é organizada como um verdadeiro ecossistema de ideias. Aqui, a crise climática não é apenas um tema de debate, mas uma experiência sensorial que busca gerar uma compreensão profunda e visceral sobre os desafios que enfrentamos. A combinação de arte, ecologia e experiências sensoriais se torna o fio condutor do percurso proposto.
Três Eixos Fundamentais da Exposição
A articulação das obras se dá através de três eixos centrais. O primeiro se apresenta a arte como uma ponte ética, que perpassa a representação da degradação ambiental. Em vez de se limitar a isso, a mostra utiliza diversas linguagens, desde a pintura até a instalação eletrônica, para transformar a crise climática em uma narrativa visual que promove a regeneração e ativa um conhecimento coletivo entre estética e ética.
No segundo eixo, a ecologia é abordada sob a ótica feminina e do conceito de “bem viver”. O meio ambiente é tratado não como uma estatística, mas como uma rede de relações que se fundamenta no cuidado e na interdependência. As artistas conectam questões críticas como microplásticos e desmatamento à vida cotidiana, enfatizando formas de sobrevivência que se baseiam na solidariedade, ao invés de na acumulação.
Por fim, o terceiro eixo destaca a experiência sensorial como um meio de aprendizado. A exposição convida o público a não ser apenas um observador passivo, mas a habitá-la. A escuta atenta das sons e símbolos permite uma conexão com aspectos menos visíveis da natureza, transformando a observação em uma vivência enriquecedora.
A Expografia como Elemento Vital
Um aspecto primordial da exposição é a expografia, que desempenha um papel fundamental na criação desse percurso imersivo. A disposição das obras transforma a cartografia proposta em um território que pode ser explorado. A artista Yto Aranda utiliza estímulos multissensoriais, mesclando luz, som e tecidos em sisal, para encorajar a interação dos visitantes e desfazer a barreira entre o sujeito e o objeto artístico.
O espaço também é aproveitado de maneira inovadora. As telas suspensas de algodão, criadas por Klaudia Kemper, exploram a tridimensionalidade e o movimento do ar, envolvendo o espectador na ideia de que os seres humanos estão intrinsecamente ligados à natureza. Ao mesmo tempo, Soledad Neira destaca o macrodetalhe dos insetos, convidando o público a desacelerar e reconsiderar sua percepção sobre o que é diminuto, atribuindo novos significados ao longo do caminho.
Além disso, a materialidade das obras, composta por fragmentos de vidro, têxteis reciclados e códigos de barras, cria contrastes táteis e visuais, guiando os visitantes por diferentes estados de percepção, desde a memória até a crítica sobre a crise do plástico.
Vozes do Coletivo: Uma Abordagem Coletiva para o Futuro
Yto Aranda explica que sua pesquisa artística surge da conexão entre tecnologia e natureza. “Busco tornar visível a rede invisível que existe sob a terra. Não é apenas olhar, mas escutar e imaginar a vida que nos sustenta”, declara. Ela ainda menciona que sua vivência no bosque esclerófilo de Rao Caya, onde reside, influencia profundamente seu trabalho.
Por sua vez, Soledad Neira focaliza o que passa despercebido, retratando insetos como seres essenciais. “Cuidar da vida implica reconhecer a importância daqueles que sustentam a nossa existência”, afirma, sublinhando que o trabalho coletivo enriquece esta perspectiva.
Marina Bellino traz a voz dos povos indígenas em sua obra, utilizando mosaicos de vidro como uma forma de resistência. “Recolher os fragmentos do vidro simboliza a possibilidade de regeneração”, menciona, referindo-se à resiliência diante da ruptura territorial.
Por fim, a artista Clara Salina questiona o modelo atual de consumo, utilizando resíduos plásticos em suas obras para instigar uma reflexão crítica sobre nosso comportamento. “Espero que o público não olhe para uma prateleira de supermercado da mesma forma após a visita”, enfatiza.
Ao unir essas diversas camadas sensoriais, políticas e afetivas, “RECONSTRUINDO Cartografias Afetivas” transforma o Museu FAMA em um espaço de ativação sensível, convidando o público a estabelecer novas conexões e repensar sua relação com a vida em suas múltiplas manifestações.


