Reflexões sobre a Ausência do Carnaval em Sorocaba
Sorocaba (SP) está prestes a completar, no carnaval de 2026, o sétimo ano consecutivo sem os desfiles das escolas de samba, um evento que antes atraía multidões e transformava a cidade em um verdadeiro centro festivo. O que antes era uma celebração repleta de vida agora se tornou uma memória distante, evocando nostalgia entre aqueles que vivenciaram os últimos carnavais.
Até 2019, Sorocaba, assim como outras cidades famosas pelo carnaval, vivia um momento vibrante, onde foliões se reuniam para preparar fantasias, movimentar carros alegóricos e sambarem em meio a um público entusiasmado, apenas para enfrentar o nervosismo da apuração no dia seguinte. Um exemplo disso foi a escola de samba Estrela da Vila, que sempre se destacou nas festividades.
No Facebook, uma postagem de 2019 da Estrela da Vila, um dos ícones da cultura carnavalesca local, traz um convite nostálgico para um ensaio da escola, que se tornaria o último evento formal da instituição.
Um Passado de Grandeza
Os desfiles em Sorocaba já viveram tempos áureos, com edições memoráveis que viam a participação de milhares de pessoas. Em 2014, por exemplo, aproximadamente 3.900 foliões estavam nas ruas, representando nove escolas de samba: Império do Parque das Águas, Furiosa Real, Planeta Negro, 28 de Setembro, Carinhosa da Nova Esperança, Estrela da Vila, Unidos do Cativeiro, Gaviões da Fiel e Unidos da Zona Norte.
O carnaval de 2015 no Parque das Águas teve arquibancadas com capacidade para 3.240 espectadores, além de espaço para 2.640 pessoas em pé, totalizando um público diário de 6.130 foliões. Camarotes também estavam disponíveis, proporcionando uma experiência única aos apreciadores da festa.
Entretanto, em 2016, um desfile programado para o bairro Ipanema das Pedras foi cancelado devido à falta de documentação necessária, forçando algumas escolas a se apresentarem em Votorantim. Nos anos seguintes, o carnaval ainda encontrou espaço na cidade, mas a atmosfera festiva foi se dissipando até culminar na ausência total do evento.
Saudade e Luta pela Memória Cultural
Angela Fiorenzo, uma referência no carnaval sorocabano, expressa sua tristeza pela atual situação. “O carnaval de rua em Sorocaba vivia. Morreu”, lamenta. Embora novos blocos tenham surgido para tentar revitalizar a festividade, como o Movimento Unidos do Samba, que trouxe as tradições de volta às ruas, o sentimento de perda persiste entre os apaixonados pela festa.
Enquanto isso, Mazé Lima, outra voz respeitada na cena carnavalesca, critica a gestão cultural da cidade. “Em questão de cultura, sinto vergonha da Secretaria de Cultura de Sorocaba. O correto seria extingui-la e direcionar os fundos para a educação, que também precisa de atenção”, afirma, enfatizando a importância de valorizar as tradições locais.
A Repercussão Econômica e Cultural da Falta de Carnaval
A falta do carnaval tem impactos diretos na economia local, como observa Sergio Monteiro, presidente do Conselho Municipal de Turismo (Comtur). “O carnaval é um movimento cultural essencial que faz parte da nossa identidade. Ele gera emprego e movimenta diversos setores como confecção de fantasias e turismo”, afirma.
A gestão atual, sob o prefeito Rodrigo Manga, tem se posicionado contra investimentos públicos no carnaval, priorizando a alocação de recursos para saúde, um tema que gerou controvérsias e investigações envolvendo corrupção. Apesar de uma lei que reconhece os desfiles como Patrimônio Cultural Imaterial, a prática se encontra esquecida.
Desejo de Renovação e Legado
A realidade é que algumas escolas de samba, como a antiga Mocidade Independente de Sorocaba, têm se adaptado e desfilado em outras cidades, como Itu e Salto. Marcelo Mello, presidente da associação, critica a falta de vontade política para reviver o carnaval em Sorocaba. “É preciso criar um legado para as novas gerações. O carnaval deve ser acessível e voltar a ser um espaço de celebração para todos”, defende.
A Secretaria de Cultura afirma ter interesse em retomar os desfiles, mas destaca que isso depende da organização dos grupos locais e da parceria com a iniciativa privada. A expectativa é que, com a mobilização certa, Sorocaba possa recuperar uma parte de sua rica herança cultural carnavalesca.


