Programas de Saúde Pública em Debate
Nas últimas semanas, várias prefeituras em todo o Brasil começaram a discutir ou implementar programas que disponibilizam canetas emagrecedoras na rede pública de saúde. De acordo com informações, mais de dez municípios já estão considerando essa alternativa, que pode se transformar em um instrumento de capital político em um ano eleitoral. Essa estratégia levanta não apenas preocupações sobre a eficácia dos medicamentos, mas também sobre as motivações políticas por trás de sua adoção.
Em uma consulta realizada pela Coluna Olavo Dutra, a Secretaria de Estado de Saúde do Pará (Sespa) afirmou não ter conhecimento de planos semelhantes em cidades do estado, mas ressaltou que as prefeituras têm liberdade para incluir esses medicamentos em suas políticas locais, caso decidam por essa abordagem. “A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará informa que os municípios têm autonomia para organizar suas Relações Municipais de Medicamentos Essenciais (Remume) e podem incluir medicamentos complementares em suas redes de assistência, conforme decisão local e respaldo técnico”, detalhou a Sespa em nota.
Desafios e Resistências Técnicas
Apesar da autorização da Sespa, os municípios que decidirem avançar com esses programas podem enfrentar resistência do governo federal. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) já expressou sua oposição à inclusão dessas terapias no Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente devido ao alto custo dos medicamentos. Especialistas alertam que a implementação de tratamentos sem um planejamento técnico adequado e garantias de continuidade pode ser um tiro no pé, colocando em risco a saúde dos pacientes.
“É um risco claro e já vimos situações semelhantes no passado. Quando decisões motivadas por interesses eleitorais se sobrepõem a aspectos técnicos, problemas surgem. Muitas dessas deliberações são tomadas sem critérios técnicos ou até mesmo legais, um fenômeno que chamamos de judicialização da saúde”, enfatiza o médico sanitarista Walter Cintra Ferreira Junior.
Cenário em Diversas Cidades
Em um panorama mais amplo, pelo menos dois municípios já iniciaram programas para fornecer canetas emagrecedoras. Sorocaba, no interior de São Paulo, executa o programa “Emagrecer Certo”, financiado por emenda parlamentar e com duração de três meses. Por outro lado, Urupês, também em São Paulo, apresentando uma situação preocupante, utiliza uma versão manipulada da tirzepatida – um dos ativos do medicamento Mounjaro – para tratar pacientes na rede pública. Essa prática gerou uma reação contundente da farmacêutica Eli Lilly, que afirma que o Mounjaro é o único medicamento à base de tirzepatida aprovado pela Anvisa no país.
No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes anunciou, durante sua campanha, a oferta de medicamentos da classe GLP-1 na rede municipal. No entanto, o projeto esbarrou na definição de protocolos clínicos e na avaliação do impacto orçamentário. Além disso, fora do escopo municipal, o Distrito Federal também implementou um projeto similar, utilizando a liraglutida (Saxenda) para o tratamento da obesidade.
Custos Elevados e Eficácia dos Medicamentos
Conforme dados do Ministério da Saúde, a inclusão da liraglutida e da semaglutida no sistema público de saúde poderia gerar um impacto financeiro superior a R$ 8 bilhões anualmente. Esses medicamentos pertencem à classe dos agonistas do GLP-1, substâncias que mimetizam a ação de hormônios produzidos naturalmente pelo intestino. Eles, inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, ajudam a controlar os níveis de glicose no sangue e aumentam a sensação de saciedade, reduzindo o apetite. Com o tempo, estudos revelaram que esses fármacos também promovem perda de peso significativa em pacientes obesos, o que ampliou seu uso para esse propósito.
Reflexões Finais
Num ambiente de incerteza política e demandas por soluções rápidas para a saúde pública, é imprescindível que os gestores considerem as questões éticas e técnicas antes de implementar programas de saúde que utilizem medicamentos com potencial de impacto significativo na vida dos cidadãos. O equilíbrio entre eficiência, custo e saúde pública deve prevalecer sobre qualquer apelo político.


