A Lenda do Jatra que Enfrentou o Esquecimento
Durante várias décadas, as praças e as arenas improvisadas da região de Bengala eram irresistíveis para os admiradores do talento de Chapal Bhaduri. Vestido como rainha, deusa ou cortesã, ele não apenas encarnava personagens femininos; ele os fazia ganhar vida. Conhecido como Chapal Rani, Bhaduri se destacou no jatra, um teatro popular itinerante da Índia que, por muito tempo, rivalizou com o cinema em popularidade e apelo emocional.
Nascido em 1939, em Calcutá, Chapal Bhaduri cresceu em um ambiente artístico, filho da atriz Prabha Devi. Desde muito jovem, ele subiu ao palco e encontrou seu nicho em uma tradição teatral particular: homens interpretando personagens femininos, conhecidos como purush ranis. Contudo, a atuação de Bhaduri transcendeu as convenções dessa prática.
Havia técnica, é claro — controle da voz, gestos marcantes e figurinos elaborados — mas também havia uma presença única, uma intensidade difícil de definir. Ele mesmo afirmou: “Eu tinha maneiras femininas, uma voz feminina”. A feminilidade foi uma parte intrínseca de sua identidade, e isso se refletia em suas interpretações, que eram profundas e distantes da caricatura.
No entanto, fora do palco, a recepção nem sempre era tão calorosa. Apesar de sua popularidade, o jatra enfrentava desdém por parte das elites urbanas, e os homens que se apresentavam como mulheres frequentemente se tornavam alvos de preconceito. Mesmo assim, Chapal Bhaduri persistiu em sua arte. Ele viveu romances discretos e manteve um relacionamento que durou mais de três décadas, embora nunca pudesse ser plenamente exposto ao público. “Recuso-me a pedir desculpas pelo amor”, dizia ele, com determinação.
Quando o Aplauso Se Transformou em Silêncio
Com o passar do tempo, a dinâmica do jatra começou a mudar. A entrada de mulheres no cenário teatral fez com que a preferência do público se voltasse para atrizes, diminuindo rapidamente as oportunidades para artistas como Chapal, os chamados “rainhas de bigode do jatra”. Como resultado, sua presença foi progressivamente ofuscada, levando a vaias e, em um incidente constrangedor, à sua expulsão de um palco.
Como muitos artistas de sua época, Bhaduri viu sua carreira desmoronar sem aviso prévio. O que antes eram performances de grande sucesso se tornaram apresentações ocasionais e trabalhos esporádicos. O artista que uma vez foi aplaudido agora se via lutando para sobreviver à margem do que havia contribuído para criar.
A Redescoberta de uma História Esquecida
Foi somente no final da década de 1990 que a trajetória de Chapal começou a ser relembrada. Um filme, seguidos de uma exposição, além de participações no cinema, ajudaram a trazer de volta seu nome à tona. Em um mundo mais aberto a discussões sobre identidade e diversidade, sua história encontrou um novo significado.
“Enquanto muitos papéis queer eram tratados com deboche, Chapal se transformava em mulher com honestidade e coragem”, destaca Sandip Roy, um escritor que analisa sua obra. Contudo, Bhaduri nunca se sentiu confortável com rótulos; não se via como parte de um “terceiro gênero” e não demandava categorias. Para ele, o essencial era viver genuinamente, tanto no palco quanto fora dele.
Atualmente, distante dos aplausos, Chapal vive em uma instituição de repouso, situada próxima à sua antiga residência, lidando com os desafios da idade. Porém, sua história continua viva, não apenas como um relato de um artista, mas como um reflexo de como a cultura pode tanto celebrar quanto descartar aqueles que contribuíram para sua evolução. A relevância de sua narrativa permanece, servindo como um importante lembrete de que, com o tempo, o reconhecimento e a redescoberta podem surgir, mesmo em meio ao esquecimento.


