Novas Culturas em Destaque na Agricultura Brasileira
A agricultura brasileira está vivenciando uma transformação significativa com a introdução de ‘culturas emergentes’ que vão além da tradicional soja. Essas novas opções de cultivo, como a carinata, sorgo, gergelim, lúpulo e canola, estão despontando como alternativas viáveis, especialmente durante a segunda safra, que ocorre entre março e julho. O crescente interesse por essas culturas se deve, em parte, à sua aplicação na produção de biocombustíveis, principalmente o combustível sustentável de aviação (SAF), cuja demanda global está em ascensão.
A carinata, em particular, não é um fenômeno isolado. Ela surge ao lado de outras opções que podem ser cultivadas na segunda safra, permitindo que a mesma área de terra seja utilizada mais de uma vez ao longo do ano. Essa prática, única para países com clima tropical como o Brasil, se mostra um grande diferencial em relação a nações do Hemisfério Norte, onde a agricultura é restringida pelas estações.
O Brasil, com seus 80 milhões de hectares cultiváveis — superfície equivalente à da Turquia —, se destaca pela possibilidade de colheitas em diversas épocas do ano. Isso é essencial para que os agricultores possam diversificar suas colheitas e aumentar a rentabilidade, sem a necessidade de desmatamento para expandir suas áreas. Bruno Laviola, engenheiro agrônomo da Embrapa Energia, enfatiza a importância dessa prática: ‘Na segunda safra, o agricultor pode buscar novas fontes de receita e fazer rotação de culturas, sem precisar ampliar a área de cultivo’.
Perspectivas para a Soja e Outras Culturas
Conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a soja deverá ocupar cerca de 49 milhões de hectares na safra 2025/2026, enquanto o milho de primeira safra terá uma área plantada de 4 milhões de hectares. Isso significa que mais de 50 milhões de hectares estão disponíveis para a segunda safra. Essa possibilidade atrai a atenção de agricultores que buscam diversificar suas atividades comerciais.
Um exemplo é o produtor Jonis Santo Assmann, que opera em Mato Grosso do Sul. Ele plantou 700 hectares de carinata em sua propriedade e relatou colheitas variando de 12 a 25 sacas por hectare. ‘Conheci a carinata na Argentina e decidi experimentar. Em 2026, pretendo plantar novamente’, afirma Assmann, destacando o potencial financeiro da nova cultura.
O Papel das Empresas no Desenvolvimento de Novas Culturas
A Nufarm, empresa global de origem australiana, está na vanguarda do cultivo de carinata no Brasil. Philipp Herbst Minarelli, responsável pela canola e carinata na Nufarm, explica que a empresa se dedicou ao melhoramento genético da canola, o que beneficiou a carinata. Com um ciclo de crescimento de 130 a 150 dias, a carinata se torna uma aposta estratégica para abastecer o mercado de biocombustíveis.
Herbst menciona que, desde 2021, o Brasil e o Paraguai estão entre os focos das pesquisas em carinata. Embora este tenha sido o primeiro ano de cultivo em larga escala no Brasil, a Nufarm já observa um interesse crescente, prevendo que mais de 300 mil hectares poderão ser cultivados no futuro. A empresa também planeja adquirir toda a produção de carinata para a fabricação de óleo, contribuindo para a cadeia produtiva local.
Diversificação Através do Sorgo e Outras Culturas
Outro aspecto interessante é a crescente adoção do sorgo, um cereal que se mostra resistente a climas secos e que pode ser utilizado tanto na produção de etanol quanto como ração animal. O sorgo tem sido cultivado em estados como Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, com novas usinas de etanol surgindo no Maranhão e na Bahia.
Além disso, a produção de gergelim no Mato Grosso tem crescido rapidamente, alcançando 600 mil hectares. O gergelim, cujas sementes são valorizadas na alimentação, adapta-se melhor a climas quentes com baixa umidade, algo que o milho, por exemplo, não tolera. Laviola observa que o gergelim se mostra uma opção rentável, especialmente com a demanda de mercados internacionais, como a China.
A Canola e o Lúpulo em Ascensão
Enquanto isso, a canola, que antes era predominantemente cultivada no Rio Grande do Sul, começa a se expandir para o Cerrado, com áreas plantadas aumentando de 50 mil para 220 mil hectares em três anos. Essa cultura é promissora tanto para o mercado alimentício quanto para a produção de biocombustíveis.
No que diz respeito ao lúpulo, utilizado na produção de cerveja, o Brasil ainda depende de importações, com 99% do seu consumo sendo adquirido no exterior. Contudo, mais de 100 produtores estão utilizando técnicas inovadoras, como luz artificial, para otimizar o crescimento do lúpulo no Brasil. Felipe Francisco, da Aprolúpulo, destaca que a adaptação das condições de cultivo é essencial para o sucesso da produção local.
O crescimento dessas culturas emergentes é não apenas uma oportunidade econômica, mas também uma contribuição importante na transição energética, conforme ressalta Luciane Chiodi Bachion, pesquisadora da Agroicone, que acredita que o Brasil está em uma posição privilegiada para liderar essa mudança.


