Desafios de Saúde na São Silvestre: Calor e Esforço Exigem Atenção Redobrada
A São Silvestre, uma das corridas mais icônicas do Brasil, oferece muito mais do que apenas um evento esportivo festivo. Embora o clima de celebração envolva os participantes, os desafios físicos enfrentados, especialmente em um dia quente de verão, vão além do simples cansaço. Com a largada ocorrendo após as 8h, os corredores se expõem a temperaturas elevadas e a um percurso que inclui descidas e subidas, elementos que intensificam o desgaste físico, principalmente para aqueles que não são atletas profissionais.
O educador físico Diego Leite de Barros, especialista em Fisiologia do Exercício pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destaca que muitos corredores amadores enfrentam um esforço contínuo que pode ultrapassar uma hora e chegar até uma hora e meia. “Durante esse tempo, o corpo se vê sob uma pressão intensa, o que pode levar a sérias consequências se não houver um preparo adequado”, explica.
Riscos de Desidratação e Superaquecimento
Com o aumento da temperatura, os riscos de desidratação e superaquecimento se tornam mais evidentes. Barros alerta que a perda de líquidos e eletrólitos pelo suor, que muitas vezes ocorre de forma discreta, pode ter consequências graves. “Quando a sede aparece, a desidratação já pode estar instalada. Isso pode culminar em sintomas como queda de pressão, tontura e perda de coordenação, levando até à exaustão térmica”, diz.
O médico ortopedista Diego Munhoz, do Hospital Sírio Libanês, enfatiza que os riscos térmicos não costumam ocorrer isoladamente. “O que realmente preocupa é a combinação de desidratação e exaustão térmica, que pode evoluir para uma insolação, uma situação de emergência médica”, adverte.
A corrida ainda serve como um teste para o sistema cardiovascular dos participantes, especialmente para aqueles que não realizam acompanhamento médico regular antes do evento. O cardiologista Elzo Mattar, do Hospital Israelita Albert Einstein, salienta a importância de um check-up antes da corrida, já que muitas condições cardíacas, como hipertensão e arritmias, podem não apresentar sintomas e só surgem durante uma avaliação médica.
“É crucial conhecer o estado de saúde do coração antes de se engajar em atividades físicas intensas. Problemas não diagnosticados podem aumentar significativamente o risco de complicações, incluindo infartos e AVCs”, alerta o cardiologista.
Desafios da Multidão e das Condições da Prova
Com cerca de 55 mil participantes, a atmosfera de aglomeração na São Silvestre também representa um desafio adicional. O acúmulo de pessoas não apenas dificulta a fluidez do percurso, mas também pode interferir no acesso a pontos de hidratação e incrementar a sensação de calor. “Estamos falando do calor do verão, da energia humana e do asfalto quente, todos contribuindo para a sobrecarga do organismo”, explica Munhoz.
Os corredores, muitas vezes empolgados pelo ambiente, podem começar a prova em um ritmo mais acelerado do que o habitual, enfrentando um risco maior de mal-estar e até desmaios. Barros destaca que a combinação de distância, calor e preparo inadequado leva a episódios que não deveriam ser comuns. “Desmaios indicam que o corpo está entrando em colapso, como se ele estivesse desligando um ‘disjuntor’ para evitar danos maiores”, afirma.
Sinais de Alerta e Prevenção
É essencial que os participantes estejam cientes dos sinais que exigem atenção imediata. Sintomas como dor no peito, falta de ar desproporcional, tontura extrema e confusão mental não são apenas sinais de cansaço normal, mas sim emergências que requerem assistência médica. Além disso, o esforço sob condições extremas pode resultar em lesões musculares, especialmente em subidas e descidas.
No que diz respeito à hidratação, Barros enfatiza que em corridas longas e quentes, apenas água pode não ser suficiente. A reposição de eletrólitos, como sódio e potássio, é fundamental para evitar câimbras e mal-estar. “O ideal é realizar a hidratação de forma planejada, incorporando géis e bebidas isotônicas durante a prova, já que o dia do evento não é o momento ideal para testar novos produtos”, recomenda.
Por fim, chegar à linha de chegada em boas condições deve ser o objetivo principal. Alternar entre correr e caminhar, especialmente nas subidas, é uma estratégia viável para controlar a carga térmica e muscular. “A São Silvestre é uma celebração, mas com o devido planejamento e atenção, é possível aproveitá-la com saúde, respeitando os limites do próprio corpo”, conclui Barros.
Cuidados Importantes para uma Corrida Segura
- Realize um check-up médico antes da prova: condições silenciosas, como hipertensão e arritmias, podem aumentar os riscos durante o evento.
- Hidrate-se preventivamente: não espere sentir sede para beber água, pois isso indica desidratação.
- Considere a ingestão de eletrólitos: em provas longas e quentes, a reposição de sais é crucial para evitar mal-estar.
- Fique atento a sinais de alerta: dor no peito, tontura e desorientação são emergências que precisam de atenção imediata.
- Evite testar novos suplementos no dia da prova: géis e isotônicos devem ser experimentados durante os treinos para prevenir possíveis desconfortos.
- Ajuste o ritmo e respeite seus limites: mais do que um tempo, o importante é cruzar a linha de chegada em segurança.


