Práticas Domésticas e Doenças Transmitidas por Alimentos
Dados epidemiológicos de diferentes países mostram que a maioria dos surtos de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTAs) acontece em residências. No entanto, a informação sobre as práticas de higiene e manipulação de alimentos nas casas é escassa. Um estudo recente, realizado em colaboração com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, avaliou essas práticas em lares brasileiros e trouxe à tona resultados alarmantes.
O estudo estabelece um paralelo entre as deficiências de higiene observadas no Brasil e em outras partes do mundo. As Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA) são um problema global, frequentemente atreladas a falhas na manipulação e armazenamento de alimentos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 600 milhões de pessoas, quase um em cada dez indivíduos, adoece anualmente devido ao consumo de alimentos contaminados.
Surtos e Impactos no Brasil
No Brasil, o Ministério da Saúde informa que, entre 2014 e 2023, foram registrados 6.874 surtos de DTHA, o que resultou em 110.614 casos de doenças e 121 óbitos. As bactérias mais comuns identificadas foram a Escherichia coli (34,8%), o Staphylococcus aureus (9,7%) e a Salmonella (9,6%). O ambiente doméstico foi o principal local associado a esses surtos, correspondendo a 34% dos casos, quase o dobro em comparação a estabelecimentos comerciais como restaurantes e padarias, que somaram 14,6%. Isso destaca a importância do ambiente familiar na ocorrência de DTHA no Brasil.
Os dados foram coletados por meio de um questionário on-line aplicado a 5 mil pessoas em todo o país, liderado pela professora Daniele Maffei, do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Esalq. A pesquisa foi publicada recentemente na revista Food and Humanity, da Elsevier.
Resultados Alarmantes e Comportamentos de Risco
O estudo também analisou as temperaturas de 216 refrigeradores domésticos, revelando que 91% estavam dentro da faixa ideal (0 a 10°C). No entanto, o levantamento ressaltou que 81% dos participantes não utilizam bolsas térmicas adequadas para o transporte de alimentos refrigerados ou congelados do mercado até suas casas. “O transporte inadequado permite que alimentos refrigerados fiquem em temperatura propícia para o crescimento de microrganismos”, alerta Maffei.
Além disso, muitos participantes admitiram descongelar alimentos em temperatura ambiente (39,5%) ou em água (18,3%), práticas que também favorecem a multiplicação de microrganismos. Somente 38% dos entrevistados afirmaram higienizar corretamente frutas e verduras, enquanto 46,3% relataram lavar carnes na pia da cozinha. Alarmantes 24% informaram consumir carnes malcozidas e 17% admitiram ingerir ovos crus ou malcozidos. Notou-se que a renda familiar influenciou diretamente as práticas de higiene e manipulação, revelando discrepâncias sanitárias entre diferentes faixas de renda.
Urgência em Melhorar a Segurança Alimentar
Esses resultados demonstram que simples atitudes cotidianas podem contribuir para a contaminação alimentar e, consequentemente, para doenças, quando a higiene na manipulação e armazenamento não é adequada. “É evidente que falhas significativas ainda persistem nas práticas de segurança alimentar em domicílios brasileiros. Isso indica a urgência de ações educativas e estratégias de comunicação voltadas à prevenção das Doenças Transmitidas por Alimentos”, conclui Daniele Maffei. A professora enfatiza a importância de disseminar conhecimentos sobre segurança alimentar, um dos principais objetivos das atividades de extensão realizadas pela Esalq.


