Crítica à Transformação do Carnaval
Douglas Germano, multi-instrumentista e sambista de São Paulo, viveu o Carnaval desde sua infância. Com apenas 12 anos, ele integrou a bateria do mestre Divino, fundador de uma escola de samba em 1982. Atualmente, ele desfila novamente ao lado de Divino, mas em um bloco que preserva a essência do samba que aprendeu. “Ontem desfilamos na Vila Esperança. A bateria contava com 67 integrantes; apenas 13 eram adultos e o restante, crianças de 7 a 15 anos, que deram um show com sua batucada”, compartilhou ao programa Conversa Bem Viver, na Rádio Brasil de Fato.
A experiência de Germano contrasta com sua visão crítica a respeito do carnaval das grandes escolas. Para ele, o Carnaval perdeu sua autenticidade. “O Carnaval das escolas de samba está muito desfigurado. Hoje, não existem mais escolas de samba; são apenas escolas de desfile. Elas vivem unicamente para isso. Não há mais composições novas, nem produção criativa. É outra coisa”, desabafa.
Identidade Cultural em Risco
Germano observa que a diversidade de “sotaques” regionais foi comprometida. “Antes, cada escola tinha seu próprio jeito de tocar e uma identidade única. Hoje, tudo está pasteurizado. Há escolas com mais de 40 anos que mudaram sua batida original para tentar vencer competições. É como se você se chamasse João e decidisse adotar o nome Michael, achando que isso resolveria tudo”, comenta em tom de brincadeira.
Essa artificialidade se reflete na própria estrutura das escolas de samba. “Muitas não têm uma comunidade genuína. Elas contam com apenas 20 a 25 pessoas que realmente se envolvem — os que pintam a quadra, limpam os banheiros, soldam e, eventualmente, vestem fantasias. O restante é superficial. Contratam uma ‘velha guarda’ que não é de compositores e uma ‘ala de compositores’ que não compõe. Assim, você vê a escola passando e o público apenas assiste, pois não existe uma torcida verdadeira”, critica.
‘Maria da Vila Matilde’ e a Luta Contra o Feminicídio
Um dos clássicos de Germano, “Maria da Vila Matilde”, que foi imortalizado na voz de Elza Soares, ganhou um novo significado ao ser escolhido como tema de uma campanha nacional do Pacto Nacional de Combate ao Feminicídio, promovida pelo Governo Federal. O verso “você vai se arrepender de levantar a mão pra mim” foi adaptado para “você vai se arrepender de levantar a mão pra ela”.
Diferente de ocasiões anteriores, ele foi consultado antes da mudança. “Dessa vez fui consultado e achei a ideia muito apropriada. É crucial incluir o homem na discussão, minando essa ideia de ‘lugar de fala’, que, para mim, é detestável. O que nos torna humanos é a capacidade de se colocar no lugar do outro”, defende.
A Importância de Ações Concretas
No entanto, ele emite um alerta: “Espero que isso não seja apenas uma campanha vazia. Precisamos de ações concretas, que permitam que as mulheres trabalhem, estudem e se desenvolvam profissionalmente. É necessário oferecer rede de apoio, creches, saúde e salários dignos. Não basta apenas dizer ‘não bata nela’; todos já sabemos que isso é inaceitável. É preciso fortalecer a mulher para que não dependa de ninguém”.
Crítica à Elite Brasileira em ‘Zelite’
Um dos versos da música “Zelite”, do novo álbum de Douglas Germano, expressa com ironia a relação da elite brasileira com os êxitos populares: “No pódio a ginasta subiu, mas ela ralou no terrão pra chegar”. A canção foi eleita “Música do Ano” pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e revela uma crítica contundente à elite que tenta se apropriar do sucesso de pessoas menos favorecidas. “A ginasta que se esforçou no chão para alcançar o pódio não recebeu patrocínio nem apoio. Depois, ela é apropriada pela mídia que representa essa elite”, explica o compositor.
Ele observa que os gêneros musicais que constituem a rica cultura brasileira são lembrados apenas quando convém para a elite: “Essas pessoas não ouvem esses estilos em suas playlists diárias”, critica. Embora celebre o prêmio da APCA, Germano mantém sua postura crítica: “A música é uma sátira para aqueles que tentam obstruir o futuro do país, mas que, paradoxalmente, estão todos lá nos camarotes do Carnaval, criticando algo que não entendem”.
Uma Nova Abordagem em ‘Branco’
Diferentemente de seus trabalhos anteriores, o álbum “Branco” destaca a colaboração. Das 12 faixas, apenas duas são composições solistas de Germano. “A maioria das músicas surgiram por meio de parcerias durante a pandemia, demonstrando que a distância física não impediu as conexões criativas”, conta.
Musicalmente, o disco se distancia da sonoridade característica de “Escumalha”, que priorizava instrumentos como bandolim e flauta. “Quis retornar às minhas raízes de batuqueiro, utilizando instrumentos que são parte do samba, mas que raramente têm espaço nos arranjos da indústria cultural. O samba não deve ser sempre apresentado da mesma maneira”, enfatiza.
Para isso, Germano convidou músicos como João Poleto (bandolinista), Henrique Araújo (flautista), Juliana Rodrigues (pianista) e Loreta Colucci (cantora), além da dupla de metais Bicudos (Pedrinho Moreira e Grazi Pisani). “Cada um trouxe sua contribuição como solista em faixas específicas, permitindo a diversidade e valorizando a individualidade de cada instrumentista”, destaca.
O álbum culmina com uma faixa especial: “Branco Áudio Encarte”, onde Germano lê os nomes de todos os colaboradores e parceiros do disco, resgatando a importância do encarte físico, que se perdeu na era do streaming. “No mundo digital, tudo se fragmenta. Quis, de alguma forma, registrar quem são aquelas pessoas que participaram deste trabalho comigo. Espero que isso se torne uma nova norma”, conclui.
Serviço
Douglas Germano apresentará o álbum “Branco” no Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141) nos dias 21 (sábado, às 20h) e 22 (domingo, às 18h) de fevereiro. Os ingressos estão disponíveis no site do Sesc.


