A Imersão na Cultura Carioca
Édouard Louis aparece radiante no saguão do hotel em Copacabana, onde está hospedado. Sua expressão tranquila contrasta com as tensões políticas e os dramas de suas obras autobiográficas, que conquistaram o Brasil nos últimos anos. Após um sucesso estrondoso na Flip 2024, onde apresentou obras como “O fim de Eddy” (2014) e “Quem matou meu pai” (2023), ele retorna ao país para lançar seu mais recente livro, publicado pela editora Todavia. Este novo título, embora datado de 2016, revisita traumas passados que marcaram sua juventude em Paris, incluindo uma agressão e um estupro. A narrativa de “História da violência” mescla diferentes perspectivas, desafiando os relatos tradicionais sobre violência.
Com um sorriso no rosto, o escritor francês traz consigo uma biografia de seu ídolo literário, Jean Genet. Aos 33 anos, Louis aparenta ser um pouco mais jovem, talvez influenciado pelas “cirurgias sociais” que ele mesmo admite ter realizado para suavizar suas origens proletárias em Hallencourt, uma cidade pequena no norte da França. Como revela em seu livro “Mudar: método” (2024), essas transformações físicas ajudaram a moldar sua identidade. Ele se preocupa meticulosamente com sua imagem e orienta fotógrafos sobre quais ângulos destacar.
Liberdade e Calor Brasileiros
A diferença entre o autor polêmico e o turista curioso é evidente. O calor do Rio de Janeiro traz à tona um lado mais descontraído de Louis, que descreve a cidade como um “dos maiores encontros da minha vida”. Enquanto degusta uma água com gás à beira da Praia de Copacabana, ele recorda suas experiências em outros lugares, como a Grécia, onde encontrou um refúgio na escrita. “É uma forma de me distanciar de diversas realidades”, diz Louis, que passa a maior parte do tempo entre Paris e Nova York, onde é professor convidado na New York University.
O autor se sente mais à vontade nas interações sociais no Brasil. Desde a infância, é afeito ao toque e à proximidade, comportamentos que considera normais, mas que são vistos como “vulgares” pela elite parisiense que ele tentou adotar. Essa facilidade nas relações é algo que Louis valoriza profundamente.
Teatro e Identidade no Rio
Durante sua estadia no Rio, Louis não se limitou a lançamentos de livros. Ele mergulhou na vida boêmia carioca, inclusive participando do tradicional Samba do Trabalhador. Também assistiu à peça “Mulher em fuga”, inspirada em seus livros “Lutas e metamorfoses de uma mulher” (2023) e “Monique se liberta” (2024). Nela, ele narra a trajetória de sua mãe em busca de independência após um casamento abusivo. Com a interpretação marcante de Malu Galli no papel da mãe, o espetáculo está em cartaz no teatro Firjan Sesi Centro até 26 de abril.
Louis ficou imensamente tocado pelo desempenho de Galli, a quem descreveu como uma “diva,” comparando sua presença a ícones do cinema como Isabelle Huppert e Julianne Moore. Ele compartilhou com sua mãe a emoção de ver sua história interpretada por uma atriz tão talentosa.
Reflexão sobre Autobiografia e Identidade
Em uma conversa com Galli, ele explorou a noção de que suas obras não são meras autobiografias, mas sim reflexões sobre experiências universais. Louis se opõe ao rótulo de “autoficção”, argumentando que a verdadeira autobiografia dissolve o ego do autor, permitindo que o leitor se veja na história. Ele acredita que suas experiências, embora pessoais, são relatadas de forma a destacar questões sociais mais amplas.
Ele destaca que, após um debate no Rio, muitas pessoas se aproximaram para compartilhar suas próprias histórias, demonstrando como sua escrita ressoa. Louis define a escrita como um “espaço de combate”, onde ele revela as complexidades da violência social, desafiando narrativas simplistas e abordando questões de classe, identidade e opressão.
Caminhos da Literatura e Discordância
Louis não teme fazer provocações, e sua postura crítica em relação à literatura é clara. Em resposta a críticas sobre suas opiniões, ele enfatiza a importância da discordância no meio literário. “A literatura é mais interessante quando há espaço para debates”, afirma. Ele se distancia da elite literária parisiense e busca conexões mais autênticas com amigos e colegas, encontrando neles um suporte que lhe permite manter sua visão radical e autêntica.
Para Louis, a rejeição do sistema literário convencional acabou sendo uma forma de libertação, permitindo que ele preservasse sua identidade e sua arte. Ao final, sua jornada reflete não apenas suas experiências pessoais, mas também uma luta coletiva contra as estruturas opressivas que permeiam a sociedade.


