Confiança em meio à incerteza econômica
O clima econômico no Brasil gera preocupações significativas entre os empreendedores, mas suas expectativas para o futuro dos próprios negócios permanecem surpreendentemente otimistas. Essa é a principal conclusão do estudo “Raio X do Empreendedor Brasileiro 2026”, desenvolvido pelo G4, uma plataforma que oferece soluções e serviços voltados para pequenas e médias empresas (PMEs). A pesquisa contou com a participação de mais de 800 empresários de diferentes setores.
De acordo com os dados levantados, cerca de 50% dos empreendedores projetam que o ambiente econômico do Brasil será mais desafiador em 2026. Em contrapartida, 70% expressam esperança de que seus negócios terão um ano melhor. Essa discrepância entre a percepção negativa sobre a economia e a confiança nas suas operações traz à tona um panorama intrigante sobre como os empresários se prepararam para os próximos desafios.
Quem são os participantes da pesquisa?
O estudo, que entrevistou 816 empresas de várias partes do Brasil, revelou que cerca de 70% dos participantes são sócios ou fundadores, representando um aumento de 8 pontos percentuais em relação ao ano anterior. O foco foi obter a perspectiva de quem realmente toma decisões estratégicas dentro das empresas.
Notou-se que mais da metade dos entrevistados possui negócios com faturamento anual superior a 1 milhão de reais. As empresas que faturam entre 1 e 50 milhões representam 48% da amostra, enquanto aquelas com receitas de até 1 milhão somam 43%. Apenas 9% das companhias entrevistadas têm faturamento acima de 50 milhões.
O setor de serviços é predominante, englobando quase 70% da amostra, seguido pelo comércio e varejo, que representa 20,3%. A indústria, por sua vez, corresponde a 8% dos participantes.
A resiliência dos negócios brasileiros
Embora a percepção negativa sobre a economia tenha diminuído em comparação ao ano anterior — já que em 2025, 61% dos empresários acreditavam que o cenário econômico iria piorar, contra 50% em 2026 —, a confiança nas operações pessoais continua alta. A expectativa média para as empresas é de 7,97 em uma escala que vai de 0 a 10, e a avaliação do desempenho operacional, em uma escala de 1 a 5, fica em 3,42, praticamente estável em relação a 2025.
Segundo Misa Antonini, CEO do G4, esses dados revelam uma mudança na postura do empreendedor brasileiro. “O sentimento para 2026 é conservador, mas a experiência recente demonstra que as PMEs brasileiras aprenderam a prosperar, mesmo em condições adversas. Aproximadamente 70% dos empreendedores que consultamos têm suas finanças supervisionadas de perto, o que torna nossos dados um verdadeiro reflexo do que ocorre no 'chão de fábrica', e não apenas uma análise teórica”, ressalta.
Crescimento da receita entre as empresas
A pesquisa também aponta que a maioria das empresas reportou um aumento em seu faturamento. Ao todo, 57,8% dos respondentes afirmaram ter registrado crescimento de receita, com 29,4% obtendo um aumento de até 20%, enquanto 28,4% superaram essa marca.
Por outro lado, o número de empresas que enfrentaram queda de receita aumentou, chegando a 13,5%. Além disso, a parcela de negócios que permaneceu estável diminuiu em quase 5 pontos percentuais, indicando um cenário de maior competitividade no mercado, com menos espaço para a estagnação.
Quando analisamos os setores, a indústria se destaca, com 63% das empresas relatando crescimento, ao passo que o comércio e varejo enfrenta desafios maiores, com 21% registrando queda de receita, o maior índice entre os segmentos avaliados.
Fatores que impactam o pessimismo
Entre as razões que justificam o pessimismo em relação ao país, a incerteza política é o fator predominante, mencionado por 64% dos empresários, reflexo do clima eleitoral atual. Além disso, 29% expressam preocupação com a reforma tributária, que pode aumentar os custos operacionais e as dificuldades de adaptação.
Para as empresas que faturam entre 10 e 50 milhões de reais, a taxa de juros se configura como um obstáculo significativo para novos investimentos. Neste segmento, 42% dos empresários apontam a Selic como o principal entrave à expansão e modernização de suas operações.
“Os empresários do setor industrial desejam investir, mas a análise de retorno sobre investimento (ROI) simplesmente não se sustenta com as taxas de juros atuais. Isso impacta diretamente a produtividade do país no longo prazo”, analisa Antonini.
A inteligência artificial como prioridade
A inteligência artificial (IA) surge como uma das principais tendências para 2026. A tecnologia é considerada essencial por 59% dos empresários, que a veem como uma ferramenta vital para aumentar a eficiência e a produtividade. No entanto, a adoção ainda é limitada: apenas 22% afirmam utilizar IA de maneira estruturada, enquanto 53% reconhecem sua importância, mas não sabem como implementá-la.
Adicionalmente, 38% das empresas ainda operam por meio de processos manuais, dependentes de planilhas e do esforço humano específico. “Esse cenário revela um gap de execução. O mercado já reconhece a necessidade de incorporar inteligência artificial em suas operações cotidianas, mas a implementação ainda é um desafio. Acreditamos que investir em capacitação contínua e em novas ferramentas de gestão é crucial para promover o crescimento das empresas brasileiras, independentemente de seu porte ou segmento”, conclui Misa.
O papel das pessoas na gestão empresarial
Além das inovações tecnológicas, a gestão de pessoas ganhou destaque. A dificuldade em contratar e reter profissionais qualificados é mencionada por 45% dos empresários, posicionando-se como o segundo maior desafio, logo atrás das vendas. A intenção de investir em talentos surge como prioridade para 31,5% dos entrevistados.
Embora esta opção não estivesse disponível na edição anterior da pesquisa, a inclusão reflete uma mudança clara de foco. Essa nova percepção também é visível na alocação de investimentos. A intenção de destinar recursos apenas para marketing e vendas diminuiu, enquanto aumentou o interesse por gestão, tecnologia e estruturação interna, como forma de garantir o crescimento mesmo em um ambiente econômico instável.


