A Falta de Planejamento das Empresas de Inteligência Artificial
A jornalista americana Karen Hao, especialista em tecnologia e colaboradora de renomados veículos de comunicação como o The Wall Street Journal e o MIT, se mostra otimista em relação ao futuro da inteligência artificial (IA). No entanto, ela levanta sérias preocupações sobre como as empresas do setor estão se comportando. Em suas reflexões, Hao destaca que essas companhias não apresentam um plano de negócios sólido e nem a substância necessária para justificar o seu valor de mercado. Segundo ela, as organizações de IA se apropriam de recursos alheios e criam narrativas que, muitas vezes, são enganosas.
“Se eu não fosse otimista, não pesquisaria nem criticaria essas companhias”, diz Hao. A autora de “Empire of AI” (O Império da IA, em tradução livre) se dedica a explorar as práticas que considera problemáticas no desenvolvimento dessa tecnologia. Em seu livro, que já se tornou um sucesso de vendas, ela revela como empresas de IA operam de maneira imperialista.
Em entrevista à BBC News Mundo durante o Hay Festival Cartagena 2026, em janeiro, Karen Hao explicou que as empresas como a OpenAI, dirigida por Sam Altman, representam novas formas de impérios tecnológicos. “Quero que as pessoas compreendam que há um argumento mais profundo por trás dessa frase e que isso desperte curiosidade sobre o que essas companhias realmente estão fazendo”, afirmou.
Opacidade e Manipulação no Setor de IA
A falta de transparência nas operações das empresas de IA é uma questão abordada por Hao. Ela argumenta que essas organizações mantêm seus processos sob uma camada densa de opacidade, dificultando a compreensão pública sobre como funcionam os sistemas que desenvolvem. “Elas escondem dados importantes, como o uso de energia e água, e a forma como monetizam suas tecnologias”, pontua.
Essa falta de clareza, segundo a especialista, facilita a manipulação da narrativa em torno da tecnologia de IA, levando o público a acreditar que os impactos e consequências desse desenvolvimento são desconhecidos. Hao sugere que esse tipo de estratégia busca manter o controle sobre o que é discutido em relação ao futuro da IA.
Comparações com Imperiais do Passado
Ao comparar as empresas de IA com impérios históricos, Hao aponta semelhanças marcantes. “Essas empresas se apropriam de recursos que não são delas, como dados de pessoas comuns e a propriedade intelectual de artistas e criadores”, diz. Além disso, ela destaca que a exploração de trabalhadores também é uma característica comum. Segundo a jornalista, as empresas de IA frequentemente empregam trabalhadores do Sul global sob condições precárias.
Em suas comparações, Hao levanta questões sobre o financiamento das pesquisas em IA, que muitas vezes vêm das próprias empresas que dominam o setor. “Se imaginarmos a maioria dos cientistas climáticos financiados por empresas de combustíveis fósseis, a falta de uma perspectiva clara sobre a crise climática seria evidente. O mesmo acontece na IA”, adverte.
Preocupações sobre O Futuro da IA
A recente adoção e o uso da IA em setores críticos, como a defesa, levantam alarmes. A especialista considera que a integração de tecnologias imprecisas e não confiáveis em sistemas militares é preocupante. “A norma internacional sempre estabeleceu que decisões em guerras não deveriam ser automatizadas. A invasão da Ucrânia pela Rússia fez com que muitos países reconsiderassem essa regra”, avalia.
Além disso, a especialista compartilha suas experiências ao escrever sobre o setor. Ela menciona que, assim que começou seu trabalho sobre a OpenAI, a empresa mostrou interesse em colaborar, mas sua postura mudou drasticamente quando passou a ser investigada por órgãos governamentais. “A falta de resposta às minhas perguntas foi uma constante”, revela.
O Futuro das Empresas de IA
Hao também levanta a questão da sustentabilidade das empresas de IA. Um relatório recente sugere que muitas delas não possuem um plano de negócios realista, o que poderia levar a uma eventual ruptura no setor. “As companhias de IA carecem de substância para sustentar seu valor. Se as bolsas sofrerem uma quebra, as consequências podem ser dramáticas”, alerta.
Embora sua pesquisa tenha um viés crítico, Hao enfatiza que seu otimismo reside na crença de que é possível um mundo melhor. Ela defende que, se as raízes dos problemas atuais da IA forem adequadamente abordadas, a sociedade pode encontrar um caminho mais humano e sustentável.


