Investimentos Cruciais para a Reativação das Ferrovias
A reativação das ferrovias abandonadas no Brasil, que somam cerca de 7.400 km, exige uma injeção significativa de recursos públicos, estimados em R$ 75 bilhões. Esse valor é fundamental para a reconstrução e operação regular das malhas ferroviárias que caíram no esquecimento ao longo dos anos.
Um estudo exclusivo da Folha, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e realizado em parceria com a Infra SA, uma estatal ligada ao Ministério dos Transportes, traz à tona essa realidade. O relatório preliminar, que visa fundamentar o planejamento logístico nacional, estabelece prioridades de investimento para os próximos anos.
O documento examina 9.845 quilômetros de ferrovias que estão inativas ou subutilizadas, distribuídas em 61 trechos pelo território nacional. Desses, a pesquisa indica que 7.412 km em 37 trechos poderiam ser reativados, desde que recebam algum tipo de subsídio ou investimento público. Os demais 2.433 km, que compreendem 24 trechos, foram considerados inviáveis para reativação, mesmo com recursos estatais.
Vale ressaltar que, segundo o levantamento, nenhum dos trechos analisados poderá ser recuperado apenas com investimento privado. A investigação abrangeu 13 trechos com 2.984 km na chamada Malha Nordeste, 26 trechos com 3.577 km na Malha Centro-Leste e 22 trechos que totalizam 3.284 km na Malha Sul.
A Viabilidade de Reativação das Malhas
O estudo foi embasado em projeções de um consórcio internacional de consultorias, que avaliou o estado de deterioração das linhas, muitas das quais foram tomadas por áreas urbanas. Com isso, foram identificadas as ferrovias que poderiam ser reativadas e o potencial econômico que elas poderiam gerar.
Foram consideradas projeções de custos de reconstrução, tipos de demanda e impactos socioambientais. Os cenários elaborados também contemplam projeções para o transporte de carga e passageiros. Do total de 7.412 km que poderiam voltar a operar, 1.310 km apresentariam menor dependência de recursos públicos, necessitando apenas de um investimento estatal para recuperar a infraestrutura.
Entretanto, a maior parte da rede viável, cerca de 6.102 km, necessitaria de subsídios operacionais regulares para assegurar o funcionamento das linhas. Os dados indicam que a maioria dessas ferrovias tem potencial para o transporte de cargas, com aproximadamente 5.900 km voltados para a movimentação de mercadorias. Cerca de 1.200 km poderiam operar em um modelo misto, permitindo o transporte simultâneo de cargas e passageiros, enquanto apenas 300 km estariam voltados exclusivamente para o transporte de passageiros.
Regionalização das Malhas e Oportunidades
A Malha Nordeste, que abrange 2.984 km, atravessa estados como Pernambuco, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Alagoas. Os trechos conectam regiões metropolitanas, como Recife e Fortaleza, a áreas produtivas no interior e a portos, como Suape (PE) e Cabedelo (PB). Um dos trechos com potencial de viabilidade na região é o Tronco Recife, que liga a capital pernambucana ao agreste do estado, cobrindo 611 km.
Por sua vez, a Malha Centro-Leste, com 3.577 km, cruza estados como Bahia, Sergipe, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás, Distrito Federal e parte de São Paulo. Um corredor promissor nesta área é o trecho que conecta Visconde de Itaboraí (RJ) a Vitória (ES).
Finalmente, a Malha Sul, com 3.284 km de trilhos nos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e parte de São Paulo, apresenta exemplos viáveis como a ligação entre Ourinhos (SP) e Cianorte (PR), ou entre Cruz Alta e Passo Fundo (RS). Embora três a cinco ramais sejam destinados apenas ao transporte de passageiros, totalizando cerca de 300 km, todos eles ainda dependeriam de subsídios permanentes.
Desafios e Oportunidades de Investimento
Segundo Mauricio Portugal, especialista em infraestrutura, o diagnóstico apresentado no estudo era esperado. Ele observa que é difícil sustentar investimentos em ferrovias baseados apenas na demanda. “A ferrovia tem muitos benefícios econômicos, especialmente quando comparada ao transporte rodoviário, mas é complicado para o investidor se apropriar dessas vantagens suficientes para garantir uma taxa interna de retorno que compense os riscos”, afirma.
Isadora Cohen, sócia da ICO Consultoria, reforça que a simples reconstrução das ferrovias não é suficiente. “Os investimentos públicos podem ser altos, e a demanda por transporte pode não ser suficiente para justificar esses gastos. Portanto, se o intuito for reativar esses trechos, será necessário implementar subsídios para amortizar os investimentos”, observa.
Ronei Glanzmann, CEO da MoveInfra, destaca a necessidade de capital intensivo no setor ferroviário, que requer grandes investimentos em infraestrutura, material rodante e tecnologia. “Para alcançarmos eficiência e redução de custos, é fundamental contar com investimentos tanto do setor público quanto do privado”, conclui.
Ele menciona ainda o novo modelo de concessão da Ferrovia do Sudeste, o Viability Gap Funding, que tem o objetivo de cobrir a diferença entre a arrecadação do projeto e o que é necessário para sua viabilidade financeira, permitindo que a operação se mantenha mesmo com baixa lucratividade.
Mapa das Ferrovias Abandonadas
Trechos viáveis: 37 trajetos
Extensão total: 7.412 km
Aporte público estimado: R$ 74,9 bilhões


