Oportunidades e Limitações da Inteligência Artificial na Educação
Em uma entrevista ao Estadão, a empreendedora Iona Szkurnik, curadora do São Paulo Innovation Week, que ocorrerá em maio, abordou um equívoco comum no debate sobre inteligência artificial (IA) na educação. Segundo ela, muitos enxergam a IA apenas como um robô que realizará tarefas para os estudantes, ignorando seu potencial como uma ferramenta de apoio. ‘Eu também tenho receios como qualquer um, mas em vez de entrar em pânico, devemos nos preparar para utilizar essas tecnologias que já estão disponíveis e que não vão desaparecer’, comentou Szkurnik.
Esse é um dos principais problemas que surgem com o uso inadequado da IA: quando a tecnologia começa a substituir o raciocínio dos alunos, comprometendo o processo de aprendizagem. Ao permitir que a máquina assuma a responsabilidade pela reflexão e pela construção de ideias, as escolas correm o risco de não formar pensadores críticos, tornando-se meras administradoras de tarefas. Contudo, Szkurnik ressalta que quanto mais os estudantes exercitam o pensamento crítico, a criatividade e a definição de seus objetivos, mais a IA pode impulsioná-los em suas jornadas.
A Realidade das Escolas Diante da Tecnologia
Essa análise traz à tona um dilema enfrentado pelas instituições de ensino: como integrar uma tecnologia que já faz parte do cotidiano dos alunos, mas que ainda é pouco compreendida pelas escolas? Uma pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil indica que 70% dos alunos do ensino médio utilizam ferramentas de IA para suas atividades escolares, mas uma fração pequena recebeu orientação sobre como utilizá-las adequadamente. Assim, enquanto a tecnologia avança, as instituições educacionais permanecem, em grande parte, despreparadas para mediá-la.
O debate que envolve a inteligência artificial na educação se movimenta entre dois extremos igualmente improdutivos. De um lado, há um otimismo excessivo, onde muitos acreditam que a IA é a solução mágica para os problemas históricos da educação brasileira. Essa perspectiva ignora os déficits de aprendizagem que perduram há anos e que não serão resolvidos simplesmente pela introdução de novas tecnologias. O sistema educacional já vivenciou outros momentos de fascínio por inovações, e a história frequentemente mostra que a tecnologia pode chegar antes de uma reflexão pedagógica adequada.
A Reação da Educação à Novidade
Por outro lado, existe uma reação defensiva que tenta combater a inovação por meio da proibição. Essa abordagem é igualmente ilusória, pois a IA já se tornou parte integrante do ambiente em que crianças e jovens vivem. Ela está presente em seus celulares, aplicativos de estudo e plataformas digitais que hoje regem a circulação do conhecimento. Ignorar a IA não a eliminará; ao contrário, transferirá seu uso para fora do alcance dos educadores. Quanto mais as escolas tentarem desconsiderar a inteligência artificial, mais os alunos a utilizarão de forma desordenada.
Portanto, o verdadeiro desafio não é decidir se a tecnologia deve ser incorporada à educação, pois ela já está presente. O foco deve ser em como e em que condições essa tecnologia será utilizada no processo educacional. Se a IA for apenas uma ferramenta para gerar respostas rápidas, corre-se o risco de empobrecer o trabalho intelectual dos alunos. Porém, se utilizada como apoio em investigações, organização de informações e comparação de argumentos, pode expandir as possibilidades pedagógicas.
A Importância da Preparação das Escolas
Para que isso aconteça, as instituições precisam se preparar adequadamente. Isso envolve capacitar os professores a lidar com essas ferramentas, revisar práticas de avaliação e reafirmar a missão central da educação. Em um cenário onde respostas estarão a poucos cliques de distância – e nem sempre confiáveis, é fundamental ensinar os alunos a fazer perguntas, analisar informações e construir argumentos robustos.
Esse é o momento para que o País evite tanto a ingenuidade entusiástica quanto a recusa infundada. A tecnologia continuará a avançar, independentemente das hesitações do sistema educacional. A verdadeira escolha é clara: devemos aprender a utilizar a IA de forma crítica ou permitir que seja disseminada entre os estudantes sem a devida orientação. A escola brasileira ainda tem a oportunidade de optar pela primeira alternativa e, assim, demonstrar se está à altura das transformações que o tempo exige.


