A Influência de Paulo Freire na Educação Brasileira
Quando acreditamos ter explorado ao máximo a obra e as publicações de Paulo Freire, um novo livro surge para nos lembrar que ainda há muito a descobrir sobre o patrono da educação brasileira. Intitulado ‘Paulo Freire: Meus Registros de Educador’, essa nova obra, lançada pela editora Paz e Terra, traz à luz fichas de trabalho, anotações e relatos de sua prática educacional ao longo de décadas, com ênfase no Nordeste do Brasil e na América Latina.
Para discutir mais sobre esse lançamento, Ana Maria Araújo Freire, conhecida como Dona Nita, viúva de Paulo Freire e pedagoga renomada, participou do programa ‘Conversa Bem Viver’. Doutora em Educação pela PUC de São Paulo e com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Mato Grosso do Sul, Dona Nita fala sobre sua relação com Freire e a importância de sua obra na atualidade.
A Relação de Dona Nita com Paulo Freire
Durante a entrevista, Dona Nita destacou: “Organizo parte da literatura de Paulo, já que sou do seu segundo casamento. Fiquei viúva e, um ano depois, Paulo também perdeu sua primeira esposa; foi então que nos unimos”. Ela explica que existem os herdeiros naturais – os filhos do primeiro casamento de Freire – e a obra escrita durante sua união com ela, que está sob sua responsabilidade. “Respeito muito o que é deles, mas fico com o que Paulo produziu a partir da convivência comigo, que, evidentemente, teve influência significativa em seu trabalho”.
Dona Nita recorda a profunda conexão emocional que teve com Paulo, afirmando que sua morte foi um grande abalo. “Ele era um homem que dizia: ‘Eu não sou autônomo, eu sou muito carente, então as minhas mulheres me influenciam’. Vivíamos um casamento harmônico, repleto de vida e de uma forte parceria diante dos desafios que o Brasil enfrentava”.
O Exílio e a Luta pela Educação
A pedagoga rememora o exílio de Paulo Freire, que ocorreu devido à repressão do governo militar. “Ficamos muitos anos afastados, pois ele não poderia permanecer no Brasil sem correr risco de vida. O regime militar o via como uma ameaça e queria eliminá-lo”. Em um encontro com o então presidente Castelo Branco, Freire se posicionou de maneira firme: “Sou um subversivo da ordem. Luto pela alfabetização do povo brasileiro e pela participação de todos na sociedade”.
Dona Nita ainda menciona que, apesar dos desafios enfrentados, a pedagogia de Freire não perdeu a relevância após a redemocratização. Recentemente, com a ascensão de Jair Bolsonaro, que criticou abertamente a obra de Freire, muitos jovens se sentiram atraídos a conhecê-la. “As vendas dos livros aumentaram, pois a curiosidade sobre quem era Paulo Freire cresceu”.
O Legado de Freire na Educação Atual
Sobre a aplicação do método de Paulo Freire, Dona Nita afirma que ele ainda é utilizado em várias partes do mundo. “É claro que houve algumas adaptações com o avanço da ciência e da linguagem, mas a essência do que Paulo defendia permanece presente”. A pedagoga também reflete sobre o futuro político do país e como Freire estaria se posicionando: “Ele estaria apoiando a pré-candidatura de Lula, pois sempre lutou para que todos tivessem voz na sociedade”.
Dona Nita finaliza ressaltando a importância da obra de Freire, que continua relevante mesmo cinco décadas após sua publicação. “Livros como ‘Pedagogia do Oprimido’ são estudados em universidades internacionais, e isso é um grande reconhecimento para nós, brasileiros. Paulo escrevia apenas quando tinha algo real a dizer, sempre a partir da sua vivência e da realidade ao seu redor”.
Conexões com o Presente
O livro recém-lançado possibilita uma nova compreensão do pensamento de Freire, desde suas anotações e fichas de trabalho até suas reflexões pessoais. Essa obra evidencia o compromisso do educador com uma educação transformadora, voltada para a realidade do povo e a construção coletiva de conhecimento, reafirmando sua relevância e atualidade na discussão sobre educação no Brasil.


