Reflexões sobre a Leitura no Brasil
Quantos livros você leu este ano? Essa pergunta pode causar certo desconforto, especialmente quando a resposta tende a ser menor do que em anos anteriores. Segundo dados do Instituto Pró-Livro e do Ministério da Cultura, em 2024, 53% da população brasileira se declara não leitora, um aumento de oito pontos percentuais em relação a 2007, quando esse índice era de 45%.
A leitura, além de ser uma ferramenta crucial para enriquecer o repertório cultural, também traz benefícios à saúde. O Instituto Pró-Livro aponta que a prática regular da leitura pode aprimorar a memória e, inclusive, ajudar na prevenção do Alzheimer. Atividades que estimulam o cérebro, como a leitura, servem como uma forma eficaz de prevenir demências. Além disso, a leitura é uma excelente alternativa para relaxar, especialmente à noite.
Apesar dos números desanimadores, a esperança, assim como os livros, continua viva. Em Votorantim, na Região Metropolitana de Sorocaba, há várias histórias inspiradoras de pessoas que encontraram na literatura uma forma de vida. Uma dessas histórias é a do advogado Roque Dias Prestes, que acaba de completar 87 anos e é um verdadeiro amante da leitura.
A Arte de Viver pela Literatura
Nascido em Pardinho e tendo morado em São Manuel antes de se estabelecer em Votorantim, Roque é um exemplo de dedicação à cultura. Ao longo de sua trajetória, ele desempehou diversos papéis, desde operário e lavrador até diretor do Procon de Votorantim, onde se aposentou. Além disso, também atuou como professor por nove anos após a aposentadoria compulsória. Sua contribuição ao jornalismo inclui a criação do Jornal de Votorantim, que operou por quase 40 anos.
A vida de Roque se divide em duas fases: antes e depois de descobrir a escrita. A partir de 2012, ele começou a se dedicar à literatura e, desde então, nunca mais parou. Roque é também compositor, tendo gravado nove CDs e é o autor do hino da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História (AVLAH). Com nove livros publicados, ele mantém diversos escritos guardados, aguardando uma futura publicação.
Seu ímpeto literário foi despertado principalmente pela leitura de “Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, além do épico “Os Lusíadas”, de Luís de Camões. Roque caracteriza seu gosto literário como “uma miscelânea”, mantendo uma biblioteca com mais de 12 mil volumes, onde aprecia navegar pelas estantes até escolher uma nova obra.
Coletividade e o Papel da Academia Sorocabana de Letras
Roque não é um caso isolado diante do crescente número de não leitores. Em Sorocaba, a Academia Sorocabana de Letras (ASL) se dedica desde 1977 a promover a literatura na cidade. A sede da academia tem uma forte conexão com a memória local, ocupando o espaço que antes abrigava a Biblioteca Operária, uma iniciativa de funcionários da antiga fábrica Cianê e da ferrovia Fepasa.
Com um formato inspirado nas academias francesas, a ASL conta com 40 cadeiras, embora tenha tido dificuldades para mantê-las ocupadas simultaneamente ao longo dos anos. A biblioteca do local guarda materiais valiosos da cultura sorocabana, que estão sendo recuperados com o tempo, incluindo correspondências de presidentes endereçadas à ASL e até uma resposta da Embaixada dos Estados Unidos.
O compromisso da ASL é envolver a sociedade em atividades literárias, buscando levar cultura a diferentes públicos. Entre as iniciativas futuras estão a reforma da sede, a adequação da biblioteca para visitas e a realização de feiras literárias, principalmente voltadas para crianças, para introduzi-las ao mundo da literatura.
Segundo o presidente da ASL, Antonio Pontes, “a literatura hoje enfrenta uma certa restrição devido à evolução do nosso amado celular. As pessoas têm buscado o imediatismo, e muitos estão deixando de ler para ganhar tempo, mas isso acaba prejudicando a reflexão e a formação de um pensamento crítico. A falta de organização para adquirir informações adequadas pode comprometer a cidadania, pois as pessoas estão se desconectando da reflexão.”


