Residuo Radioativo em Itu: A Luta dos Moradores
Mais de quatro décadas se passaram desde que toneladas de resíduo radioativo, proveniente do tratamento do minério de monazita, começaram a ser armazenadas em Itu, a cerca de 100 quilômetros de São Paulo. O caso, que ficou conhecido como ‘lixo atômico’, remete a um passado que ainda assombra a população local. O armazenamento ocorreu sem regulamentação adequada e sem que o poder público estivesse ciente da situação, até que uma professora despertou a atenção das autoridades.
O material, que data de um período anterior ao notório acidente com Césio-137 em Goiás, já causou revolta e medo na comunidade. Lázaro Piunti, prefeito da cidade durante a época em que a estocagem foi revelada, relembra os eventos que levaram à exposição do caso. “A professora notou aquele material exposto e levou o assunto aos vereadores. O tema ganhou notoriedade, incluindo uma cobertura do Jornal Nacional”, afirmou Piunti, que se viu em uma posição difícil ao lidar com uma situação em que a autorizacão para o depósito do resíduo radioativo nunca foi discutida com a administração local.
O ex-prefeito criticou o sigilo com que o depósito foi feito, explicado pela atuação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que permitiu a construção do armazenamento em uma área rural, fora da supervisão da prefeitura. “Se fosse na área urbana, eu teria negado a autorização. Na zona rural, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) não precisava prestar contas ao município”, contou.
Protestos e Mobilizações
A situação se transformou em um marco de mobilização na cidade, resultando em diversas manifestações que contaram com a participação de alunos, professores e ativistas locais. Em uma das ocasiões, a área foi invadida por manifestantes para ser inspecionada. “Foi uma luta pelo acesso ao local. Quando organizamos uma reunião popular, tivemos a oportunidade de entrar. A segurança pública foi alertada sobre os riscos de um grande aglomerado no local. No entanto, reafirmei que a verdadeira insegurança estava no material exposto”, destacou Piunti.
O ex-prefeito, que governou a cidade por quatro mandatos, chegou a se reunir com autoridades em Brasília, incluindo o então presidente José Sarney. A partir dessas reuniões, foi criada uma comissão envolvendo representantes da União, do Estado e do município. Contudo, Piunti lamenta que essa colaboração se esvaziou ao longo dos anos, ao mesmo tempo em que a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) foi deixada de lado.
O que inicialmente parecia ser uma solução temporária para o armazenamento do resíduo radioativo se estendeu por mais de 50 anos, levando os moradores a se referirem ao material como ‘lixo atômico’.
O Que Está Armazenado?
Atualmente, no terreno, estão guardadas 3,5 mil toneladas de Torta 2, um resíduo considerado de baixa radioatividade, segundo as Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Este material foi armazenado entre 1975 e 1981 em grandes silos de concreto, que possuem paredes de 20 centímetros de espessura e são impermeabilizados. A segurança do armazenamento é uma preocupação constante, dada a história de clandestinidade em torno do seu depósito.
Em uma audiência pública realizada na cidade, discutiu-se a possibilidade de transferir os resíduos para a China, que havia manifestado interesse em adquirir o material por R$ 65 milhões. No entanto, essa transação não se concretizou devido à ausência de licenças ambientais adequadas. Recentemente, a INB lançou um novo edital para vender o material armazenado em Itu, São Paulo e Caldas (MG) novamente, mas os moradores permanecem céticos quanto à segurança do armazenamento.
Monitoramento e Segurança
O monitoramento da segurança do material armazenado é feito pela INB, que, segundo informações, realiza análises anuais da radiação na área. Os dados não indicam contaminação nos arredores do local, ou pelo menos é isso que afirmam os relatórios. Entretanto, o físico Paulo Massoni, especialista em energia nuclear, alerta para os riscos potenciais de vazamento se os compartimentos de armazenamento estiverem danificados. “A blindagem antiga em si pode ser uma preocupação. Precisamos saber o estado de conservação do concreto”, disse Massoni.
Segundo a INB, a água de consumo da região apresenta níveis de urânio dentro dos limites permitidos, mas a comunidade continua a exigir um acompanhamento mais rigoroso da situação. O que parece ser uma história de descaso e desinformação, agora se transforma em um capítulo que a cidade de Itu deseja encerrar de uma vez por todas.


