Contexto da Habitação em Sorocaba e Jundiaí
Um estudo recente realizado pelo g1 aponta que as cidades de Sorocaba e Jundiaí, localizadas no interior de São Paulo, possuem um número alarmante de imóveis vazios. Segundo a pesquisa, existem 44 imóveis desocupados para cada família sem-teto na região. Os dados foram obtidos a partir do Censo 2022 do IBGE e informações do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDH). Essa situação evidencia que a verdadeira questão não é a falta de moradias, mas sim o acesso dificultado a elas.
Esta reportagem faz parte de uma série especial do g1 Sorocaba e Jundiaí dedicada à Campanha da Fraternidade 2026, que neste ano se concentra no direito à moradia. O objetivo é debater os desafios e as iniciativas que buscam garantir condições dignas de habitação para as famílias brasileiras. A primeira matéria da série, que explica os objetivos da campanha, está disponível no site do g1.
Dados e Comparações
A pesquisa disponibilizou um mapa que permite a comparação entre a quantidade de habitações vazias e o número de famílias em situação de rua em diversas cidades paulistas. Os dados referem-se a núcleos familiares inscritos no CadÚnico, sugerindo que o total pode estar sub-representado.
Esse levantamento provoca reflexões sobre a realidade de uma parcela da população que vive sem o direito garantido à moradia digna nas cidades. Para aprofundar a compreensão da situação, o g1 entrevistou especialistas que contribuíram com suas análises sobre a problemática e as sugestões de políticas públicas necessárias para abordar esse desafio.
O Que Explica a Contradição?
De acordo com a Constituição Federal, o direito à moradia digna está assegurado no artigo 6º. No entanto, esse direito é violado não apenas quando indivíduos vivem em situação de rua, mas também quando as condições de dignidade humana não são respeitadas no local onde habitam. Isso significa que ter um teto não é necessariamente sinônimo de ter uma casa.
Não ter acesso a uma habitação digna, segura e saudável representa um risco à saúde e ao bem-estar dessas pessoas. Além das questões estruturais, a falta de serviços sociais adequados contribui para a exclusão e o adoecimento daqueles que não conseguem usufruir desse direito básico.
A doutora em geografia humana e professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Rosalina Burgos, defende que as discussões sobre habitação devem ser analisadas em um contexto social mais amplo. “Se a política habitacional não estiver integrada a outras áreas e políticas públicas, não terá eficácia. Atualmente, ela parece estar mais alinhada aos interesses do setor privado, que prioriza lucros em detrimento da oferta de moradia para as classes populares, diretamente afetadas pelo déficit habitacional”, argumenta.
Rosalina acrescenta que a especulação imobiliária é um dos principais fatores que explicam o grande número de imóveis vazios. Muitos proprietários mantêm suas propriedades desocupadas como investimento, esperando uma valorização futura que traga lucro.
Propostas para a Resolução do Problema
A arquiteta e urbanista Sandra Lanças, pesquisadora do Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Habitação de Interesse Social de São Paulo, enfatiza que manter imóveis desocupados, especialmente em áreas centrais, é um desperdício de infraestrutura e gera insegurança e desvalorização. Ela sugere que a solução passa pela reforma desses imóveis, transformando-os em moradias para trabalhadores e jovens, o que reduziria deslocamentos e aproveitaria estruturas já construídas.
“Não faltam imóveis que poderiam ser utilizados de maneira social. Reformar essas estruturas traria um ciclo virtuoso para a sociedade”, conclui Sandra Lanças. Além disso, a construção civil deve adotar práticas de reciclagem de espaços, o que propiciaria ganhos econômicos e ecológicos, evitando a necessidade de novas construções.
Com foco nas áreas centrais das cidades, ela sugere que os espaços sejam reformados para atender a demanda de trabalhadores que buscam reduzir custos e o tempo de deslocamento, fatores que impactam diretamente a qualidade de vida e os orçamentos das famílias.
A relação dos jovens com o mercado imobiliário também é uma preocupação para Sandra. Segundo ela, essa faixa etária enfrenta desafios ao buscar sua independência em um cenário onde o preço dos imóveis é exorbitante e as opções disponíveis são cada vez menores.
Ações em Andamento e Perspectivas Futuras
O Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Habitação de Interesse Social do Estado de São Paulo tem como meta, até 2029, criar um sistema que auxilie órgãos públicos e empresas de construção civil a diagnosticar as condições de demanda por habitação de interesse social, mostrando a variação do déficit habitacional e as necessidades da população.
No contexto da cidade de Sorocaba, a Prefeitura informou que cerca de 101 mil pessoas se inscreveram no programa habitacional “Casa Nova Sorocaba”, indicando uma alta demanda por moradia. Contudo, a administração municipal afirmou que apenas dois empreendimentos sociais estão em estágios avançados: o Residencial Morada dos Eucaliptos, com entrega prevista para 2028, e o CDHU Jardim Eliana, cujas obras foram autorizadas para 2026.


