O Filme que Colocou Pernambuco em Evidência
A poucos dias da cerimônia do Oscar, o filme “O Agente Secreto”, um thriller político sob a direção de Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, tem atraído a atenção da mídia internacional para Pernambuco. Com quatro indicações ao Oscar, incluindo a de Melhor Filme, a produção já conquistou 2,35 milhões de espectadores no Brasil. No entanto, seu impacto vai além das telonas, resultando em um aumento significativo no movimento de pequenos negócios no Recife, onde parte da trama foi filmada.
Um exemplo claro deste efeito pode ser observado na La Ursa Tours, uma empresa de turismo criada em 2017 que oferece passeios a pé e de bicicleta pela cidade. Após a estreia do longa, a empresa encontrou uma nova oportunidade de negócio ao desenvolver um roteiro turístico que explora locais utilizados nas filmagens.
Roderick Jordão, fundador da agência, conta que a ideia surgiu durante a sessão de estreia em Recife, quando reconheceu diversos cenários durante a projeção. “Enquanto assistíamos ao filme, já era fácil identificar várias locações. Quando saímos da sessão, percebemos que tínhamos praticamente um roteiro pronto na cabeça”, revela.
O passeio, que tem duração aproximada de três horas, passa por pontos históricos do Centro do Recife, incluindo o Parque Treze de Maio, o Ginásio Pernambucano, o Chá-Mate Brasília e o Cinema São Luiz. Desde a implementação, os passeios têm sido realizados aos sábados e rapidamente atraíram público. Inicialmente com 20 vagas, a capacidade foi ampliada para 30 participantes por edição devido à alta demanda. Roderick aponta que esse sucesso também teve um reflexo positivo nas demais atividades da empresa, que observou um aumento de cerca de 20% na procura.
Repercussão Internacional e Mudanças no Público
A repercussão internacional de “O Agente Secreto” tem um peso considerável. No dia 11 de janeiro, o filme foi eleito como Melhor Filme em Língua Não Inglesa no Golden Globe Awards, uma das premiações mais renomadas do cinema. “No início, cerca de 90% do nosso público era formado por recifenses. Após o Globo de Ouro, notamos um aumento significativo na presença de visitantes de fora. Hoje, o público é uma mescla equilibrada: 50% de turistas e 50% de moradores locais”, explica Roderick Jordão.
Outro negócio que se beneficiou da fama do filme é o Chá-Mate Brasília, uma lanchonete tradicional do centro do Recife, fundada em 1984. Administrada pelos filhos de Manoel Pinheiro, o local ficou conhecido por sua comida simples e acessível, atraindo um público diversificado. Contudo, enfrentava dificuldades nos últimos anos, com uma queda no movimento desde 2013.
A mudança veio quando a lanchonete foi escolhida como locação do filme, graças ao suporte de uma produtora que já era cliente da casa. O local é destacado em uma cena de perseguição no longa. Para Paulo Pinheiro, um dos administradores, acompanhar as filmagens foi uma experiência marcante. “Foi intenso e muito interessante. A equipe passou horas gravando para garantir a perfeição de cada cena”, disse.
Ele também notou um aumento no movimento após a exibição internacional da produção. “Depois da indicação ao Globo de Ouro, percebemos uma mudança positiva, com um aumento de 30% no fluxo de clientes, especialmente aos sábados, quando os passeios começaram a visitar as locações do filme”, relatou Paulo.
Um Impacto Positivo em Vendas e Inovação
Esse aumento de visitantes refletiu nas vendas, que cresceram entre 25% e 30%. Além dos clientes habituais, o Chá-Mate Brasília agora recebe turistas e curiosos que desejam conhecer de perto um dos cenários do filme. “Recebemos visitantes motivados pela curiosidade, até turistas argentinos que vieram pesquisar sobre as locações”, conta Paulo. A novidade não parou por aí: inspirados pelo filme, o menu da lanchonete agora conta com um sabor especial de mate com leite, batizado de acordo com a produção.
O movimento positivo também chegou ao comércio local, com produtos inspirados pela película. A Pátio Tecidos, uma loja inaugurada em 2024 e especializada em estampas com referências à cultura pernambucana, viu um aumento de clientes interessados em produtos relacionados ao filme “O Agente Secreto”.
O empresário Lucas Mota, dono da Pátio, explica que a loja já trabalhava com estampas inspiradas em locais icônicos do Recife. Com o destaque da produção, surgiu a ideia de criar produtos que dialogassem com o filme. “Assim que o longa foi lançado, percebemos que ele tinha tudo a ver com o que a gente faz”, destaca Lucas. A parceria com a troça carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos resultou na criação de novas estampas e na venda de camisas, que se tornaram um sucesso após serem exibidas por Wagner Moura no filme.
O Potencial do Audiovisual para a Economia Criativa
O impacto gerado pelas iniciativas citadas ressalta o potencial do setor audiovisual para movimentar a economia criativa local. Eduardo Maciel, especialista em Economia Criativa do Sebrae/PE, afirmou: “Produções culturais têm o poder de inspirar novos negócios e experiências”. Ele acrescenta que o cinema pode gerar roteiros turísticos, produtos temáticos e eventos que beneficiam diversos setores econômicos.
“Um filme de qualidade, como este, pode trazer desdobramentos significativos e movimentar a economia pernambucana”, enfatiza. Para empreendedores como Lucas e Paulo, o reconhecimento de produções locais reforça o orgulho cultural e a importância dos espaços tradicionais. “Quando locais históricos aparecem em produções culturais, eles mostram que o coração do centro da cidade permanece vibrante”, conclui Paulo.


