Raízes Profundas nas Tradições de Páscoa
A Páscoa é um dos momentos mais significativos do calendário cristão, mas suas origens estão intrinsicamente ligadas à cultura judaica. Segundo o professor de história Henrique Cavalcanti, ‘A Páscoa cristã tem profundas raízes na Páscoa judaica, conhecida como Pessach, uma celebração rica em simbolismo e descrita no Antigo Testamento, ou Torá, para os judeus’.
A Pessach, que em hebraico significa ‘passagem’, remete à história da libertação dos hebreus da escravidão no Egito. Este evento, relatado na Bíblia, representa uma jornada de 40 anos pelo deserto sob a liderança de Moisés, em busca da Terra Prometida. Para o judeu Gabriel Toueg, essa narrativa é mais do que uma história; é parte de sua herança familiar. Seus avós fugiram do Egito em tempos de guerra e preconceito, buscando uma vida melhor na América do Sul.
Armando e Marcelle Toueg, com seus filhos pequenos, realizaram uma travessia pelo Mediterrâneo, deixando para trás o Egito. Ao embarcar, muitos imigrantes realizavam um gesto simbólico: atiravam as chaves de suas casas ao mar, simbolizando a despedida definitiva. Gabriel guarda um documento dessa época, um ‘laisser-passer’, que permitiu a saída de sua família do Egito, mas sem a possibilidade de retorno.
A Travessia e Seus Significados
Gabriel reflete sobre a travessia de seus ancestrais e como ela ecoa nas celebrações do judaísmo. O Pessach, que marca a libertação, é também uma narrativa carregada de incertezas e reconstruções. Curiosamente, a famosa Santa Ceia, onde Jesus compartilhou sua última refeição com os discípulos, é considerada um jantar de Pessach. Durante essa festividade, é costume não consumir alimentos fermentados, optando pela matzá, um pão ázimo, e as crianças participam de uma dinâmica que mantém viva a história da celebração.
No jantar ritualístico conhecido como Seder, cada elemento possui um significado especial. As ervas amargas representam o sofrimento da escravidão, enquanto os ingredientes doces simbolizam o trabalho árduo dos hebreus no Egito. A conexão entre as tradições judaica e cristã é evidente na ideia de passagem, simbolizada pela última praga, a morte dos primogênitos, da qual os judeus escaparam marcando suas portas com o sangue do cordeiro, um ato que inspirou a figura de Cristo, descrito nas escrituras como ‘o Cordeiro de Deus’.
Reflexões sobre o Legado e a Esperança
O padre Fernando Giuli explica que, para os cristãos, a Páscoa é uma celebração da nova vida, uma passagem da vida velha para uma renovada, simbolizando a libertação do pecado. Gabriel, que herdou o talento linguístico de seu avô poliglota e do pai tradutor, é um elo dessa rica tradição. Contudo, a história de sua família carrega uma carga emocional pesada. A pressão de nunca ter tido um lar fixo e a perda de um filho no Egito deixaram marcas profundas.
Após a morte de Armando Toueg, o cerne das tradições judaicas passou a ser preservado por Marcelle, mas sua ausência levou à perda de muitas celebrações familiares. Gabriel teve a chance de levar seu pai de volta ao Egito para uma reportagem, mas ele se recusou, afirmando: ‘Não perdi nada lá, não esqueci nada lá, não tenho porque voltar’. Essa recusa reflete o peso emocional que muitos imigrantes sentem ao revisitar seu passado.
Páscoa: Uma Celebração de Renovação
Na tradição evangélica, a Páscoa também reflete a ideia de passagem, com ênfase na individualidade da fé. O pastor Ranieri Costa afirma que a Páscoa é ‘a lembrança da morte de Jesus, cuja ressurreição valida seu sacrifício e proporciona a libertação da morte e do pecado’. Este período de celebração é marcado por cultos que reúnem fiéis em momentos de reflexão e comunhão.
A Páscoa, em suas diversas formas, carrega a mensagem de que todo processo de travessia tem um significado, mesmo quando esse sentido só se revela posteriormente. Além disso, é interessante notar que celebrações de renascimento e esperança estão presentes nas culturas muito antes do judaísmo e do cristianismo. Comunidades agrícolas no hemisfério norte, por exemplo, já realizavam rituais de gratidão pela chegada da primavera.
Aqui nas Américas, os Guarani celebram o renascimento da terra durante a colheita, um ciclo que transcende barreiras culturais. Assim, a Páscoa pode ser percebida como um dos nomes mais recentes para um anseio humano atemporal: a certeza de que, após o frio, sempre vem o florescer.


