Mudanças no Planejamento do Metrô e Seus Efeitos
O polo industrial de São Paulo vive um momento de incertezas com a proposta de construção de um novo pátio para o metrô, localizado na área da Henry Ford. Em estudo, 41 imóveis foram identificados como possíveis candidatos à desapropriação. Apesar de os empresários se mostrarem favoráveis à nova linha, muitos pressionam a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) a reconsiderar a localização do pátio, apontando que a construção em uma avenida poderia impactar diretamente até 60 empresas que operam na região.
Donos de indústrias relataram ao O GLOBO que decidiram congelar investimentos enquanto aguardam definições do governo. A preocupação é a possibilidade de paralisações nas atividades devido à necessidade de transferência de maquinário e contratação de mão de obra, que pode ter que ser feita em municípios mais afastados da capital paulista.
Empresas em Alerta
A Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI) defende que a nova linha de metrô vai melhorar a mobilidade na Mooca e promover a integração com outras áreas da cidade, além de gerar empregos durante as obras. “O sistema de transporte vai beneficiar diretamente as empresas, moradores e trabalhadores da região”, afirma a secretaria, responsável pela licitação da linha.
Entre as empresas situadas na área em questão, estão o Mercado Livre e a Loggi, que operam galpões que podem ser desapropriados. A La Pastina, no setor alimentício, e a Lorenzetti, do segmento elétrico, também estão na lista das empresas afetadas, embora a última afirme que os impactos sobre suas operações seriam mínimos. O diretor da Alumínios Jangada, Matteo Gavazzi Rodriguez, expressou preocupações sobre os possíveis efeitos da desapropriação, revelando que a empresa, que opera há anos no setor de metalurgia, poderia sofrer um grande impacto caso tenha que transferir suas operações.
As Consequências Econômicas da Mudança
A Crifér, distribuidora de aço que opera em uma área de 15.000 metros quadrados, também está atenta às mudanças. Júlio Russo, seu presidente, afirmou que os planos de expansão foram paralisados devido à incerteza sobre o futuro da operação. “Compramos um terreno de 3.000 metros quadrados há um ano com planos de construir um novo galpão, mas tudo está estagnado”, lamenta.
Anderson Festa, presidente da associação da região, destacou que, desde a suspeita de que a área poderia abrigar um pátio de trens, realizaram duas reuniões com a SPI. A consulta pública sobre a linha ocorreu entre 6 de outubro e 24 de novembro, permitindo que a sociedade apresentasse suas propostas e preocupações sobre o impacto econômico da construção.
Preocupações Socioeconômicas e Alternativas
Festa enfatiza que a falta de análise sobre os impactos socioeconômicos é a principal preocupação dos empresários. “Um projeto sem considerar as empresas da região pode levar a demissões e à necessidade de relocação para fora de São Paulo”, alerta. Ele sugere que o pátio poderia ser construído em um local alternativo, como na Avenida Presidente Wilson, que possui áreas com habitações irregulares. “Remover essas famílias e criar um complexo habitacional poderia garantir dignidade às pessoas”, completa.
O histórico industrial da região é significativo. Com a passagem da antiga estrada de ferro Santos-Jundiaí, a industrialização foi impulsionada, servindo para o escoamento do café e, posteriormente, atraindo indústrias para os bairros da Mooca, Ipiranga e ABC Paulista. O professor Julio Zorzenon, do Departamento de Economia da Unifesp, explica que a localização favorece as operações industriais devido ao acesso facilitado às rodovias.
Reflexões sobre o Futuro da Indústria Local
Embora o arquiteto e urbanista Valter Caldana, da Universidade Mackenzie, reconheça a atividade industrial na área, ele acredita que o projeto reflete um processo mais amplo de desindustrialização. “As grandes indústrias que um dia estiveram aqui, como a Antárctica e a Ford, já não existem mais”, comenta.
O governo, por sua vez, informou que o projeto está em fase de avaliação após a consulta pública e que a futura concessionária será responsável pela elaboração dos projetos básicos e executivos, definindo a localização das infraestruturas da linha. A secretaria garantiu que todas as contribuições da população serão consideradas para a versão final do edital, que deve ser lançada no primeiro semestre de 2026.


