Um Protesto Marcante na História Brasileira
Durante a ditadura militar, um episódio curioso e emblemático ocorreu no interior de São Paulo. Um juiz, chamado Manoel Morales, emitiu uma portaria que proibia casais de se beijar em locais públicos. Essa medida, considerada absurda, não apenas tentava cercear a liberdade de expressão e afeto, mas também estipulava que quem desrespeitasse tal decisão poderia enfrentar processos criminais.
No dia 8 de fevereiro de 1981, em resposta a essa restrição, milhares de estudantes se mobilizaram para uma manifestação que ficou conhecida como a “Noite do Beijo”. O ato, realizado no centro de Sorocaba, rapidamente se tornou um símbolo de resistência e luta pela liberdade em tempos de repressão. O evento não apenas atraiu a atenção da população local, mas também resultou em um confronto com a Polícia Militar, evidenciando a tensão crescente entre o governo e a sociedade.
O Contexto da Resistência Estudantil
Com a flexibilização política que começava a surgir, o movimento secundarista ganhava força. Os organizadores da manifestação planejavam uma série de atividades artísticas, além de uma demonstração do que consideravam um direito fundamental: o livre ato de beijar. Com apresentações musicais e teatrais, a ideia era transformar o protesto em uma celebração de amor e liberdade.
Contudo, a manifestação evoluiu para uma grande passeata, atraindo cerca de cinco mil pessoas, tornando-se a maior mobilização na história da cidade até aquele momento. Os participantes chegaram a usar esparadrapos na boca como forma de ironizar a portaria do juiz, enquanto gritavam slogans como “Mais beijo, mais pão, abaixo a repressão”. A mensagem era clara: o autoritarismo não seria tolerado, e a busca pela liberdade de expressão era um clamor unânime.
Conflito e Repressão Durante o Protesto
À medida que o ato se intensificava, um incidente ocorreu quando um carro modelo Chevette avançou em direção à multidão, atropelando algumas pessoas e causando uma comoção geral. A tensão aumentou, e a polícia, temendo que o controle sobre o evento se perdesse, reagiu de forma violenta. O tumulto resultante foi caótico, com diversas detenções e feridos, refletindo a brutalidade da repressão militar naquele período.
Mesmo diante da opressão, o espírito da manifestação não se dissipou. As pessoas continuaram a protestar, e as palavras de ordem ecoavam no ar, revelando um profundo descontentamento com o regime. O ato não apenas desafiou a ordem estabelecida, mas também se tornou um marco histórico na luta por liberdade em um Brasil que já vivia os últimos suspiros da ditadura militar.
Legado da Noite do Beijo
Eventualmente, com o esfriamento dos ânimos e a pressão social crescente, a portaria de Morales foi extinta. O impacto da Noite do Beijo se estendeu além daquele dia, com a organização de novos grupos de resistência e o fortalecimento da luta por direitos civis. Em 2009, Carlos Batistella, um dos líderes do movimento, documentou a experiência em um livro, revelando a importância daquele ato na memória coletiva do país. Em 2016, um documentário intitulado “Noite do beijo: Ontem e hoje” foi lançado, trazendo à tona as lembranças e reflexões sobre aquele período de resistência.


