Uma Reflexão Sobre Comunidade LGBT+ e Saúde Mental em Cena
No Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, o monólogo “Aqui, Agora, Todo Mundo” está em cartaz até 1º de março, convidando o público a uma reflexão profunda sobre temas contemporâneos como ansiedade, solidão e a pressão por desempenho. A narrativa é uma imersão nas experiências de um corpo gay na metrópole, proposta por Felipe Barros, que protagoniza e idealiza a peça. O espetáculo recebeu o Coelho de Prata, um prêmio popular na 33ª edição do Festival Mix Brasil, um dos mais relevantes eventos culturais voltados à comunidade LGBT+ na América Latina.
O programa “Conversa Bem Viver”, da Rádio Brasil de Fato, teve a oportunidade de entrevistar Barros, que também co-assina a dramaturgia ao lado do diretor Heitor Garcia. Durante a conversa, Barros relatou que o espetáculo nasceu de uma pesquisa pessoal sobre saúde mental, catalisada pelos desafios enfrentados durante a pandemia. O intuito era abordar o tema com leveza, evitando o tom depressivo. “Queríamos tratar isso de uma maneira solar, focando em cura, pertencimento e a importância da comunidade. O objetivo é que ninguém se sinta sozinho em sua luta interna”, afirmou ele.
A estrutura da peça é uma representação do funcionamento da mente de alguém que sofre com questões psíquicas. Barros explicou: “Construímos uma dramaturgia que reflete a mente de quem está à beira da depressão, levando à necessidade de reavaliar a vida. A partir disso, estabelecemos um jogo cênico onde a plateia colabora para montar esse quebra-cabeça”.
As cenas não seguem uma ordem fixa, o que permite que cada apresentação tenha uma nova dinâmica. Isso exige que o ator mantenha uma presença e percepção agudas. “O público representa a mente, uma sociedade que impacta o personagem. Apesar dessa complexidade, o resultado é leve e cativante, com referências musicais que incluem a obra da cantora Jalu, cujas músicas dialogam diretamente com os temas abordados na peça”, acrescentou Barros.
Embora a narrativa seja centrada na experiência de um homem gay, ela aborda questões universais relacionadas à saúde mental. “É uma peça que fala de saúde mental de maneira democrática. A mente, afinal, é igual para todos”, destacou o ator. Ele relatou que após as apresentações, inúmeras pessoas de diferentes idades se aproximam para compartilhar suas experiências. Entre elas, uma senhora de 70 anos que atribui ao uso de medicamentos a capacidade de continuar frequentando o teatro e jovens que encontram em sua história fragmentos de suas próprias vidas.
“Tem surgido conversas muito significativas após os espetáculos. As pessoas comentam sobre como foram impactadas. A peça é sobre vida, sobre a importância de viver. Abandonar a vida é renunciar a todas as possibilidades. O que importa é entender o que nos causa dor e ter coragem de falar sobre isso”, refletiu Barros.
O Silêncio que Fala
Barros também abordou os avanços e os desafios enfrentados pela comunidade LGBT+ na mídia e nas artes. “Cresci nos anos 1990, e enfrentava inúmeras dificuldades como adolescente gay. Havia estereótipos e a sombra da AIDS. Atualmente, as produções audiovisuais estão trazendo à tona novos conflitos, permitindo que o corpo gay saia de um lugar de mero estereótipo. Agora, podemos discutir a saúde mental de homens gays, as questões das mulheres lésbicas e da transexualidade”, comentou.
Ele ponderou que, apesar dos avanços, a polarização política e social ainda afeta a comunidade. “A própria comunidade LGBT tem seus padrões e preconceitos internos. É um desafio constante. Enquanto tentamos avançar, há forças que buscam retroceder. No entanto, não podemos parar. Há belíssimas iniciativas surgindo, com pessoas que desejam transformar o mundo por meio da arte e de um novo comportamento”, concluiu.
Serviço
A peça “Aqui, Agora, Todo Mundo” se apresenta no Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, São Paulo) aos sábados, domingos e segundas-feiras, sempre às 19h, até 1º de março. Os ingressos são acessíveis e mais informações podem ser encontradas nas redes sociais.
Conversa Bem Viver
O programa é transmitido de segunda a sexta-feira às 7h na Rádio Brasil de Fato, com sintonia na frequência 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é disponibilizada semanalmente aos sábados, a partir das 13h30, no canal do Brasil de Fato no YouTube e em TVs retransmissoras.


