Transformação na Política de Mobilidade
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante um evento em 2006, declarou: “A gente não pode ficar entendendo que pode chegar um grupinho de pessoas e falar: ‘Eu quero cinema de graça, eu quero teatro de graça, eu quero ônibus de graça’.” Essa afirmação reflete um momento em que a proposta de gratuidade no transporte público, conhecida como tarifa zero, parecia uma ideia distante e utópica. No entanto, duas décadas depois, Lula parece ter revisitado essa questão. No ano passado, o petista solicitou ao Ministério da Fazenda um estudo sobre a viabilidade da tarifa zero em todo o país.
Articuladores próximos ao presidente sugerem que uma proposta para criar um Sistema Único de Mobilidade, inspirado no Sistema Único de Saúde (SUS), poderá ser incluída em seu plano de governo para a próxima eleição, em 2026. Esse sistema, que contaria com financiamento do orçamento público, visaria garantir a gratuidade no transporte público, potencializando a proposta em meio a um cenário eleitoral já acirrado.
A Demanda por Tarifa Zero e o Cenário Político
A proposta da tarifa zero ganhou destaque em um momento em que pelo menos 145 municípios brasileiros já implementam esse modelo, abrangendo diversos tipos de transporte, como ônibus e metrô. O apoio popular a essa ideia é substancial: uma pesquisa recente revelou que 81% da população aprova a tarifa zero. Além disso, 65% dos deputados também se manifestaram favoráveis, um número que supera as taxas de apoio para outras propostas, como o fim da escala 6×1.
Entretanto, apesar de sua popularidade, a implementação da tarifa zero enfrenta um grande obstáculo: os custos implicados. Estima-se que o valor necessário para financiar essa política pode variar entre R$ 78 bilhões a R$ 200 bilhões por ano, o que levanta preocupações sobre o impacto nas contas públicas, especialmente em um contexto de dívida crescente e alta carga tributária.
A Comparação com o Bolsa Família
O urbanista Roberto Andrés, da UFMG, comparou a tarifa zero ao Bolsa Família, destacando que, assim como o programa de transferência de renda, a gratuidade no transporte também teria um impacto significativo sobre as camadas mais vulneráveis da população. Essa ligação entre as duas políticas pode ser um trunfo eleitoral para Lula, especialmente considerando o impacto do transporte, que representa 18,1% do orçamento das famílias brasileiras, atrás apenas da habitação.
Embora a tarifa zero se apresente como uma solução para diminuir o custo do transporte para os mais pobres, críticos argumentam que uma abordagem mais focada em subsídios para famílias de baixa renda seria uma alternativa menos custosa e mais eficiente. O deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP), que defende a proposta, sugere que o financiamento da tarifa zero poderia vir do fim do desconto de 6% sobre o salário bruto que as empresas pagam para vale-transporte, substituído por uma contribuição fixa.
Impacto nas Eleições e Desafios Fiscais
Com um cenário eleitoral cada vez mais competitivo, a proposta da tarifa zero poderá servir como uma esperança para Lula, que enfrenta uma diminuição nas intenções de voto. A pesquisa Genial/Quaest revela um empate técnico entre ele e seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), o que torna urgentemente necessário apresentar medidas populares.
No entanto, especialistas apontam que a receptividade à tarifa zero pode não ser suficiente para reverter a rejeição ao governo, principalmente em um ambiente político polarizado. Para muitos, a gratuidade no transporte poderia trazer benefícios populares, mas também apresenta desafios financeiros que devem ser cuidadosamente analisados.
Opiniões Divergentes e o Futuro da Mobilidade
Embora a proposta tenha forte apoio, sua implementação não será fácil. Recentemente, a Câmara Municipal de Belo Horizonte rejeitou um projeto de tarifa zero, que enfrentou a resistência de setores empresariais preocupados com o impacto econômico. O debate sobre os custos e benefícios da tarifa zero está longe de ser resolvido, e essa política poderá se tornar uma questão central nas próximas eleições.
À medida que Lula e seus aliados avançam com essa proposta, será crucial comunicar claramente os impactos que a tarifa zero poderia ter, não apenas para os beneficiários, mas também para a sustentabilidade das finanças públicas. O futuro do transporte público no Brasil, e o papel que a tarifa zero poderá desempenhar, continua a ser uma questão complexa e cheia de nuances.


