Violência no Cotidiano dos Profissionais de Saúde
Uma nova pesquisa realizada pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) trouxe à tona uma triste realidade: a violência contra enfermeiros está se tornando algo comum. De acordo com o estudo, cerca de 80,3% dos enfermeiros no estado revelaram já ter enfrentado algum tipo de agressão durante suas atividades profissionais. O cenário é particularmente alarmante em cidades como Sorocaba e Jundiaí.
Em Sorocaba, onde 81 profissionais foram entrevistados, mais de 70% (70,4%) relataram ter sido vítimas de abusos, enquanto, em Jundiaí, entre os 70 enfermeiros que participaram da pesquisa, 67,1% afirmaram ter sofrido violência verbal em suas rotinas de trabalho.
Segundo a enfermeira e docente Miriam Sanches, a sensação de insegurança permeia a profissão. “Nos últimos anos, nossa exposição aumentou consideravelmente. Ao mesmo tempo, as barreiras que deveriam nos proteger estão diminuindo, o que resulta em uma maior vulnerabilidade à violência”, comenta.
Discussões Sobre a Violência na Enfermagem
O Coren-SP está promovendo audiências públicas em Jundiaí para discutir a violência enfrentada pelos profissionais de enfermagem, buscando soluções e conscientização sobre o tema. Embora os enfermeiros compreendam o estresse que leva à violência, muitos sentem que essa compreensão não é compartilhada por aqueles que cometem os atos agressivos. Os dados revelam que a maioria das agressões (68,8%) é perpetrada por pacientes e seus acompanhantes.
“É compreensível que haja um processo de sofrimento que nem todos conseguem lidar. Contudo, isso não justifica a agressão. Como profissionais da saúde, precisamos entender esse cenário e tentar agir antes que a situação se agrave,” afirma Sanches, ressaltando a alta exposição à violência que diversas categorias enfrentam.
Casos Reais de Violência
Luciana Oliveira, com 30 anos de experiência na enfermagem hospitalar, relembra um incidente traumático em que uma acompanhante ameaçou sua vida após não receber alta médica para um paciente infantil. “Ela me ameaçou de morte, dizendo que sabia onde eu morava. Isso foi realmente assustador,” conta Luciana, que teve que se afastar do trabalho por alguns dias após o ocorrido, enquanto o hospital registrou um boletim de ocorrência.
Luciana reforça que, muitas vezes, a equipe de enfermagem é responsabilizada por atrasos no atendimento médico, resultando em descontentamento e agressões por parte dos acompanhantes. “Raramente temos apoio para lidar com essas situações, e muitas vezes a única solução é chamar a segurança para afastar o agressor,” completa.
Tipologias de Violência Enfrentadas
Miriam Sanches também enfatiza que comportamentos que podem parecer sutis, como a filmagem do atendimento por parte de familiares, são formas de agressão que frequentemente passam despercebidas. O estudo mostra que, infelizmente, mais de 70% dos enfermeiros informaram não ter feito uma denúncia formal devido à falta de suporte, enquanto 61% dos que registraram a violência relataram que nada foi feito a respeito.
Preparação e Conscientização
Atuando na formação de futuros profissionais, Sanches afirma que a realidade apresentada pelos dados é um alerta nas salas de aula, onde a teoria e a prática andam lado a lado. “Trabalhamos não apenas em estágios, mas também na conscientização sobre como lidar com essas situações e na importância da saúde mental,” explica.
A enfermeira também sugere que a gestão de serviços de saúde deve implementar medidas que tornem o ambiente de trabalho menos frágil, considerando que os profissionais lidam com pessoas que estão passando por momentos de grande sofrimento.
Iniciativas do Coren-SP
Em resposta à crescente violência, o Coren-SP tem promovido audiências públicas para discutir o tema com a comunidade e autoridades. Na última quarta-feira (25), uma audiência foi realizada em Jundiaí com o objetivo de debater as reais necessidades dos profissionais e implementar medidas de proteção. O Conselho também tem realizado campanhas de conscientização para prevenir agressões e garantir que, quando elas ocorrem, haja responsabilização.
Veja abaixo os índices de violência enfrentados pelos enfermeiros nas cidades de Sorocaba e Jundiaí:
Sorocaba
- 81 profissionais entrevistados;
- 70,4% relataram agressão física;
- 61,7% sofreram violência verbal;
- 80,2% das ocorrências ocorreram no SUS;
- 75,3% das agressões partiu de pacientes.
Jundiaí
- 70 profissionais entrevistados;
- 67,1% relataram violência verbal;
- 27,1% enfrentaram agressões físicas;
- 67,1% das agressões ocorreram no SUS;
- 75,7% das agressões foram cometidas por pacientes.


