Origem e Propósito da Mamba Negra
Em 2013, no coração de São Paulo, nasceu quase por acaso a Mamba Negra, uma festa que rapidamente conquistaria um lugar de destaque na cena independente da cidade. Idealizada por Laura Diaz, conhecida como Carneosso, e Carol Schutze, a Cashu, essa iniciativa surgiu como um espaço de convivência para pessoas LGBTQIAPN+ e logo se consolidou como um território pulsante de produção cultural.
Laura relata que a primeira edição aconteceu sem cobrança de ingresso, numa cobertura simples, sem grandes estruturas, onde ela morava em seu primeiro apartamento. O nome da festa tem origem em uma brincadeira entre as criadoras, ambas nascidas no ano da serpente no horóscopo chinês. Por trás da leveza do nome, já havia a intenção clara de construir uma noite com um caráter político e representativo.
“A Mamba foi criada a partir da necessidade de um espaço, inicialmente voltado para a comunidade LGBTQIAPN+, e de desenvolver uma perspectiva de atuação na cultura, não só na noite, mas na cultura como um todo”, explica Laura, que é pessoa não binária e formada em Audiovisual pela Universidade de São Paulo (USP). Ela lembra que, naquele momento, a cena noturna paulistana estava dominada por homens cisgêneros, brancos e heterossexuais, o que limitava a diversidade nos espaços de poder.
Uma Cena em Transformação e Resistência
Além de criar um ambiente acolhedor, a Mamba Negra se tornou uma forma de luta contra o etarismo e um instrumento para preservar a memória e as histórias da comunidade LGBTQIAPN+. “A noite é uma ferramenta de não esquecimento e de não apagamento das histórias e das ‘corpas’ da comunidade”, reforça Laura, que acumula anos de experiência na produção e criação artística.
O evento se destacou também por sua flexibilidade e resistência ao modelo tradicional dos clubes de música eletrônica. Ao longo dos anos, a Mamba ocupou diversos espaços no centro da cidade, entre eles o Largo São Francisco, o Viaduto do Chá, o Cine Marrocos, o Centro Cultural Ouvidor 63 e a Casa Florescer, um espaço de acolhimento para mulheres trans e travestis. Essa trajetória demonstra a aproximação da festa com movimentos sociais, como a militância LGBTQIAPN+ e as ocupações urbanas.
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Um Som Plural e Diversificado
O repertório da Mamba Negra acompanha as transformações da música eletrônica brasileira e ultrapassa seus limites tradicionais. Em mais de uma década, a festa recebeu uma diversidade de artistas que transitam entre rap, funk e música experimental, como Badsista, DJ Ramemes, Clementaum, Tasha & Tracie, Irmãs de Pau, Marina Lima, Karol Conká, Sevdaliza e Duquesa.
Laura destaca que essa produção musical não se limita ao circuito eletrônico tradicional, mas está presente em diversas regiões do Brasil, em gêneros como melody, tecnomelody, piseiro, techno, house, funk e rap nacional. “A música popular brasileira é eletrônica também, no Nordeste, no Norte, no Sudeste, em todo lugar”, afirma.
Expansão e Reconhecimento Cultural
Além da festa, a Mamba Negra se consolidou como selo e gravadora independente, reforçando seu papel como plataforma política e social, especialmente em defesa da comunidade LGBTQIAPN+. Em setembro, a festa voltou a ocupar as ruas de São Paulo com uma edição gratuita que reuniu cerca de 6 mil pessoas, um evento que atravessou a madrugada e reafirmou a necessidade de espaços públicos para essa comunidade.
Segundo Laura, essa ocupação foi uma catarse coletiva e um grito de afirmação para muitas pessoas: “A Mamba Negra tirou do peito muitos gritos que estavam entalados”. A produção do evento envolveu meses de articulação para obtenção de autorizações, evidenciando as dificuldades que iniciativas culturais independentes enfrentam para atuar na cidade.
Desafios e Futuro da Cena Independente
Com o tempo, a Mamba Negra passou a integrar a programação cultural oficial de São Paulo, participando de eventos como a celebração dos 465 anos da cidade em 2019, a Virada Cultural de 2022 e a edição de 2025, com uma apresentação na Pista República. No entanto, o reconhecimento traz desafios, principalmente pela ameaça de que a produção independente seja absorvida pelo mercado tradicional sem que seus protagonistas tenham acesso justo aos recursos.
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Fonte: triangulodeminas.com.br
Laura enfatiza a importância de criar condições para que a cultura eletrônica brasileira, especialmente a independente, possa prosperar com autonomia. “O mercado não vai pegar essa bandeja e capitalizar em cima da gente. A nossa função geracional é justamente conseguir capitalizar em cima de todas essas conquistas, para que o mercado não absorva isso simplesmente como lucro”, alerta.
Para fortalecer a cena, ela defende políticas públicas e uma estrutura que acolha eventos de diferentes tamanhos, permitindo uma cena viva que abrace experimentação e diversidade. “Não dá para viver só de grandes festivais superfaturados, nem só de show de megastar. As pessoas precisam ter uma cena viva, experimentação, espaço para pequenos, médios e grandes eventos. É um ecossistema que se retroalimenta.”
Continuar Existindo e Produzindo Espaços
Após mais de uma década, a Mamba Negra segue enfrentando o mesmo desafio que motivou sua criação: garantir que outras pessoas possam existir, trabalhar e produzir cultura sem se encaixar nos modelos já estabelecidos. Para Laura, a solução não está em substituir os grandes espaços, mas em assegurar que eles não sejam os únicos possíveis.
“É só explicar para os grandões que ninguém é contra eles. A gente só quer poder existir: os pequenos, os médios, os ‘undergrandes’”, conclui. A próxima edição da festa, que celebra os 13 anos da Mamba Negra, está marcada para 31 de outubro de 2026, em São Paulo, mantendo viva a chama de uma cultura independente que pulsa e resiste no centro da cidade.


