Transformações nos Discurso dos Senadores
Um novo estudo realizado pela Consultoria Legislativa do Senado Federal indica que os discursos proferidos pelos senadores em Plenário estão se tornando cada vez mais curtos e com menos interrupções. Essa mudança revela um foco crescente nas redes sociais, conforme destaca a pesquisa coordenada pelo consultor Pedro Duarte Blanco. A investigação, intitulada “Plenário, Palanque, Estúdio: discursos no Plenário do Senado Federal entre 2007 e 2024”, mostra que, além da diminuição do tempo das falas, houve uma redução significativa nos apartes, que são as interrupções feitas por senadores durante os discursos.
De acordo com Blanco, essas alterações no formato dos pronunciamentos tornam as sessões plenárias mais monológicas, reduzindo o caráter de diálogo que antes caracterizava essas interações. O especialista relaciona essa nova dinâmica com as transformações tecnológicas e a forma como a comunicação política é realizada nas redes sociais. Ele aponta que há uma tendência crescente por discursos que são mais “clipáveis”, ou seja, que podem ser facilmente editados e compartilhados em vídeo nas plataformas digitais, o que diminui o espaço para improvisos e interações espontâneas, considerando os riscos de cortes fora de contexto.
Impactos da Pandemia e Linguagem Figurativa
O estudo também observou que a pandemia de COVID-19 incentivou o uso de formatos em vídeo, aumentando a retórica e a linguagem figurativa nas falas dos senadores. Isso representa mais uma mudança no perfil dos discursos, indicando como o ambiente digital influenciou a comunicação política durante e após o período crítico da pandemia.
A pesquisa é parte da série “Textos para Discussão”, desenvolvida pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria Legislativa, que busca revelar as nuances da comunicação política no país. Ao categorizar os dados, o artigo identifica três fases distintas: um aumento no número de discursos entre 2007 e 2014; uma queda acentuada de 2014 a 2021, com um pico de apenas mil pronunciamentos em 2020; e uma recuperação parcial a partir de 2021. Surpreendentemente, 2013 se destacou como um ano com quase 6,5 mil falas, em meio às mobilizações sociais conhecidas como Jornadas de Junho.
Resultados da Análise
Apesar da recuperação do número de discursos após a fase mais severa da pandemia, a duração das falas continua abaixo dos padrões observados anteriormente. Em 2024, a mediana de palavras por discurso era inferior à metade do que foi registrado em 2007. Para Blanco, essa diminuição pode refletir tanto uma mudança na comunicação política quanto um desgaste no espaço do Plenário.
“É importante destacar que este estudo é um retrato do que está acontecendo, sem necessariamente estabelecer uma causalidade clara. Pode ser que a menor extensão dos discursos seja fruto do desgaste do Plenário, e não apenas uma mudança por conta das redes sociais”, ressalta o consultor. Ele sugere que as recentes tendências na comunicação política podem estar ligadas a um contexto mais polarizado e tenso nos últimos anos.
A Questão dos Apartes e o Papel do Plenário
Outro ponto abordado pelo estudo é a significativa redução dos apartes, que caíram para pouco mais de 10% do total de 2007, com o “aparte único”, onde apenas um senador interrompe, dominando essas interações. Após as sessões remotas, mais de 90% das falas ocorreram sem interrupções. Embora isso sugira um deslocamento do debate para outras arenas, Blanco acredita que o Plenário ainda desempenha um papel simbólico importante.
“Os debates podem estar se deslocando para comissões, onde as discussões são mais especializadas, mas o Plenário continua sendo essencial para que os senadores expressem e debatam publicamente suas ideias”, observa o consultor.
Produtividade e Debate Público
O estudo também analisa a relação entre a produtividade e o uso da palavra no Plenário. O número de atividades plenárias caiu em pelo menos 10%, enquanto o número de proposições aprovadas aumentou, sugerindo um ritmo mais acelerado de deliberação, mesmo com menos sessões. Para Blanco, essa mudança indica que um debate mais focado pode ser considerado mais produtivo do que longos discursos, uma visão que reflete uma abordagem contemporânea da política.
No entanto, ele adverte que o debate público vai além da mera deliberação legislativa. “Os debates têm um papel fundamental na representação e ajudam a estabelecer um ambiente político saudável. Embora isso não necessariamente leve a melhores decisões, contribui para a estabilidade geral do sistema”, conclui Blanco.
Questões de Gênero nas Interações
A pesquisa também investiga questões de gênero, observando um aumento nos apartes entre senadoras desde 2018. Isso sugere que as senadoras estão se tornando mais ativas na articulação de pautas, em um momento em que a Bancada Feminina no Senado está se solidificando. Blanco acredita que há espaço para mudanças nesse cenário, pois o modelo das redes sociais pode ser desgastante. “O Plenário pode, portanto, liderar uma nova fase de debate mais dialogado, estabelecendo um novo padrão de interação política”, conclui.


