A Revolução nas Barbearias das Periferias
A arte transmitida pela navalha e o cabelo dos clientes tem se mostrado um poderoso meio de expressar a cultura nas barbearias das periferias do interior de São Paulo. Os cortes artísticos que surgem nesse contexto não são meramente estéticos, mas refletem uma dinâmica cultural rica, inspirada em elementos do cotidiano e nas estéticas urbanas. Em cidades como Sorocaba, os barbeiros estão elevando o ofício a um novo patamar, trazendo a criatividade para o primeiro plano e conquistando um reconhecimento que vai além das fronteiras nacionais.
Desde 2018, a iniciativa CHAVOSOS tem se destacado nesse cenário, promovendo uma fusão entre formação técnica e moda, enquanto registra e valoriza o trabalho artístico dos barbeiros locais. Recentemente, o grupo apresentou uma instalação na 4ª edição da Frestas, uma trienal de artes promovida pelo SESC em Sorocaba, que contou com o apoio da TV TEM. Essa oportunidade surgiu após o reconhecimento de seus talentos em eventos internacionais.
“Estamos muito felizes e ainda nos faltam palavras para expressar todos os sentimentos e emoções após os dois dias de abertura da trienal. Depois de oito anos trilhando essa jornada coletiva, estamos realizados em apresentar nossa pesquisa, nosso arquivo e nossos sonhos para o futuro por meio desta obra”, afirmou o grupo CHAVOSOS, demonstrando a importância do evento para a valorização artística.
A Origem do Coletivo CHAVOSOS
A concepção do projeto nasceu com o fotógrafo Jeff Pedroso, que, inspirado por outros artistas que documentavam a cultura periférica em São Paulo, decidiu criar uma série fotográfica que capturasse o trabalho dos barbeiros locais. A amizade com Wesley Fernandes, um barbeiro de Sorocaba, foi o ponto de partida para a formação do coletivo CHAVOSOS, que hoje conta com mais seis colaboradores, todos empenhados em assinar projetos e editoriais para marcas e artistas.
O reconhecimento do trabalho dos barbeiros vai além do embelezamento; ele propõe uma reavaliação da cultura das periferias. Para Jeff, a missão é quebrar preconceitos sociais e mostrar a riqueza cultural que esses espaços podem oferecer. “Muitas vezes, o que é associado à periferia é marginalizado não apenas pela sociedade, mas também pelos próprios habitantes. O que fazemos é ressignificar esses símbolos e dar visibilidade a eles”, comenta.
O Impacto Cultural da Barbearia Criativa
A presença dos barbeiros como artistas vem ganhando força, à medida que se desvinculam de estigmas passados. Wesley Fernandes destaca que durante a inauguração da Frestas, muitos se surpreenderam ao ver a barbearia sendo reconhecida como uma forma de arte. “A gente nunca ouviu falar que o barbeiro era artista ou que o que a gente fazia era arte”, diz Wesley, refletindo sobre a transformação que vem ocorrendo na percepção pública.
As conquistas do coletivo são uma demonstração do potencial de uma cultura muitas vezes negligenciada. Eles já participaram de eventos importantes, como exposições em Santos e até mesmo publicações em revistas internacionais. “Expandir nosso trabalho é gratificante. Fomos capa de álbum, e isso é uma prova de que o que fazemos é valorizado”, ressalta Wesley, referindo-se ao álbum “Eh Noiz Ki Tá” do MC Hariel, em cuja capa ele trabalhou.
Celebrando a Identidade e a Arte
O projeto vai muito além de uma simples gíria. Ele é uma expressão coletiva de identidade e orgulho, celebrando a cultura funk e as realidades periféricas. Wesley compartilha a emoção de ver seu trabalho na capa do álbum de um artista que luta pela comunidade, destacando a sinergia entre suas lutas. “Viver isso foi uma experiência extremamente gratificante”, completa.
O coletivo CHAVOSOS não funciona apenas como uma barbearia; trata-se de um convite para que todos os barbeiros da periferia se reconheçam como artistas visuais. “Isso aqui é cultura, isso aqui é arte, isso aqui é uma forma de se manifestar socialmente”, conclui Jeff, enfatizando a importância desse reconhecimento para o futuro das barbearias e da cultura periférica como um todo.


