Operação Bazaar: Uma Ação Coordenada Contra a Corrupção
Nesta quinta-feira (5), uma força-tarefa composta pelo Ministério Público de São Paulo, pela Polícia Federal e pela Corregedoria Geral da Polícia Civil resultou na prisão de nove indivíduos suspeitos de integrar uma rede de corrupção e lavagem de dinheiro dentro de setores estratégicos da Polícia Civil paulista. Nomeada de Operação Bazaar, a investigação tem como alvo um esquema que transforma delegacias especializadas em verdadeiros balcões de negócios, com o objetivo de assegurar a impunidade de criminosos.
Entre os detidos estão advogados, um delegado, investigadores e até figuras notórias da Operação Lava Jato, como doleiros. Essa operação acende um alerta sobre a corrupção endêmica que permeia algumas áreas da segurança pública no estado.
O Que É a Operação Bazaar?
A Operação Bazaar visa desmantelar uma organização criminosa que se aproveitou da influência de agentes públicos em unidades policiais para obstruir investigações e extorquir os investigados. A decisão judicial do juiz Paulo Fernando Deroma de Mello destaca uma “subversão ao dever funcional” cometida pelos policiais, que utilizaram a estrutura estatal para negociar a liberdade de suspeitos.
A Justiça não poupou esforços: foram decretadas 11 prisões preventivas e autorizados 23 mandados de busca em residências, escritórios de advocacia e sedes de delegacias, demonstrando a gravidade da situação.
Esquema de Lavagem de Dinheiro com Vales-Refeição
Para camuflar a origem ilícita das propinas, o grupo utilizava técnicas sofisticadas. Um dos principais métodos consistia em converter dinheiro vivo em créditos de vale-refeição. O esquema operava através de empresas de fachada que registravam vendas fictícias, inserindo valores ilegais como benefícios, o que dificultava a identificação por parte das autoridades financeiras. Além disso, simulava-se operações de importação para dar uma aparência legal aos recursos, enganando o sistema.
Valores de Propina nas Investigações
As apurações realizadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) revelaram cifras alarmantes. Em interceptações, mencionam uma transferência de R$ 33 milhões relacionada a um acerto em uma delegacia. Outros diálogos indicam que um delegado teria recebido mais de R$ 20 milhões em propina. Há ainda relatos de tentativas de extorsão, como no caso em que policiais exigiram R$ 5 milhões para não dar seguimento a um inquérito.
Principais Alvos e Detidos
Entre os detidos estão quatro policiais civis: o delegado João Eduardo da Silva (da Delegacia do Jabaquara), o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz (também do Jabaquara) e os investigadores Roldnei Eduardo dos Reis Baptista (da 1ª Delegacia de Combate à Corrupção do DPPC) e Rogério Coichev Teixeira (do Serviço Aerotático). Também foram presos os advogados Antônio Carlos Ubaldo Júnior e Marlon Antônio Fontana, além da doleira Meire Poza, enquanto o doleiro Leonardo Meirelles permanece foragido.
O Papel dos Doleiros da Lava Jato no Esquema
Meire Poza e Leonardo Meirelles, conhecidos por suas ligações com a estrutura financeira de Alberto Youssef durante a Operação Lava Jato, reapareceram como operacionais neste novo esquema. Meire Poza é acusada de gerenciar a contabilidade do grupo e pagar propinas a policiais, enquanto Meirelles, que tem um acordo de delação homologado pelo STF, é apontado como responsável por mascarar a origem do dinheiro ilegal e por facilitar a corrupção.
Locais e Departamentos da Corrupção
As atividades ilegais foram identificadas em unidades de elite, como o Departamento de Investigações Criminais (Deic) e o Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). Investigações revelaram que pagamentos de propina ocorreram no hangar do Serviço Aerotático e extorsões no 16º Distrito Policial, em Vila Clementino. Um dos casos mais graves envolve criminosos que acessaram o DPPC para substituir um disco rígido apreendido, eliminando provas cruciais.
Como as Autoridades Descobriram o Esquema?
A Operação Bazaar é um desdobramento da Operação Recidere, de 2023, que investigou um esquema bilionário de remessa de dinheiro ilícito para o exterior. A análise de celulares apreendidos anteriormente revelou a conexão de operadores financeiros com delegados e investigadores. Outra investigação, a Operação Fractal, também expôs fraudes por policiais que deveriam estar combatendo esses crimes.
Posição da Polícia Civil e da Secretaria da Segurança Pública
A Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) afirmou que a Corregedoria da Polícia Civil está envolvida na ação e que a instituição “não compactua com desvios de conduta”. A SSP-SP anunciou que investigações administrativas serão realizadas em todas as unidades que tiveram buscas. A Corregedoria fará verificações extraordinárias sobre as ações dos agentes presos, começando pelo 35º Distrito Policial, no Jabaquara. Em suas palavras, a SSP-SP afirmou que “é um caso pontual” e que medidas rigorosas serão tomadas para punir aqueles que infringiram a lei.


