A Vida Além do Sertão
A nova biografia de Guimarães Rosa, escrita por Leonencio Nossa, desafia a imagem tradicional do autor como o ‘menino do mato’. Esta percepção, que foi uma construção do poeta João Cabral de Melo Neto, não reflete a real trajetória do escritor. Embora Rosa se referisse a suas origens como pertencentes a uma família de fazendeiros, a verdade é que, ao nascer, sua família já havia abandonado a pecuária em favor do comércio. Cordisburgo, sua terra natal, era um ponto de encontro de ideias, mercadorias e histórias. Desde a infância, Rosa viveu entre o Brasil rural e o urbano, este último em processo de industrialização desde o século XIX. Essa experiência híbrida é fundamental para entender a obra que ele construiu, que não se limita ao regionalismo nem à literatura urbana moderna.
“A palavra ‘sertão’ em sua obra pode gerar confusão, pois encobre a verdadeira vida de Rosa em Cordisburgo”, explica Nossa. Ele destaca que Rosa não nasceu em um Brasil totalmente rural, mas em uma época de transição. Em sua casa, havia acesso a revistas estrangeiras, um sinal de que ele estava conectado com o mundo, especialmente por meio da vibrante cidade de Belo Horizonte, que sempre esteve presente em sua trajetória.
Um Autor Inusitado
Contrariando a expectativa de um autor intimamente ligado ao campo, Rosa não era um homem do lombo do cavalo. Mariano Valério, um de seus contemporâneos, recorda-se de ter ficado surpreso ao ver fotos do escritor montando, revelando que Rosa não era tão hábil em cima de um cavalo como muitos imaginavam. “Ora, seu Guima montava de mal a mal, segurando no arcão da sela o tempo todo, com medo de cair”, contou Valério.
O sertão na obra de Rosa é apresentado como um espaço dinâmico, repleto de interações econômicas e sociais. “Ele nunca disse que o sertão dele era exclusivamente rural”, afirma Nossa. A crítica ao estereótipo do sertão como um lugar isolado, apenas associado à pecuária, é uma das principais mensagens da biografia.
Além disso, a originalidade de Rosa não reside em uma reinvenção radical da linguagem, mas sim na capacidade de reunir e amplificar diferentes vozes da oralidade brasileira. O escritor buscou incorporar não apenas o português sertanejo, mas também influências africanas, indígenas e até os sons da fauna, criando uma linguagem que refletisse a complexidade do Brasil.
A Ancestralidade de Rosa
Outro aspecto importante que Nossa destaca é a figura de Graciana Teixeira Lomba, bisavó de Rosa. Identificada como possivelmente uma ex-escravizada, Graciana viveu um amor proíbido com Francisco de Assis Guimarães, bisavô do autor, que se casou com uma mulher branca por imposição familiar. Essa conexão africana nunca havia sido abordada em estudos sobre Rosa, mas é uma parte significativa de sua ancestralidade.
Graciana era lembrada com veneração dentro da família, quase como uma figura divina. Na Academia Brasileira de Letras, Rosa fez questão de mencionar o nome de suas bisavós, tanto a negra quanto a branca. “Graciana não é apenas uma figura da infância, mas uma presença que acompanhou Rosa durante toda sua vida”, diz Nossa. Essa conexão se reflete na obra do autor, que frequentemente alude a mulheres negras, mesmo que, como muitos de sua época, não tenha se esquivado de certos estereótipos.
Compromissos e Conflitos
A trajetória política de Rosa o posicionou no centro de tensões internacionais. Durante sua atuação na Alemanha nazista, suas cartas irônicas a Hitler chamaram a atenção da polícia secreta, que o monitorava. Um exemplo de sua ousadia literária é uma carta onde ele menciona pratos típicos brasileiros em tom de zombaria ao hino nacional do ditador: “Tutu, covinha, lombinho, pimenta-malagueta, dois limõezinhos. Se o Hitler provasse veria que há coisa melhor do que ‘Die Wacht am Rhein’”.
Além de suas ações literárias, Rosa e sua companheira, Aracy de Carvalho, ajudaram judeus durante a Segunda Guerra. Enquanto Aracy se expunha ao esconder refugiados, Rosa, embora mais cauteloso, também se arriscou ao assinar vistos e facilitar a saída de judeus da Alemanha. “Ele tomou atitudes rebeldes que o colocaram em risco”, conta Nossa, mencionando que Rosa foi criticado por não ser um autor engajado, algo que o incomodava. Contudo, ele defendia que seus personagens refletiam a realidade de conflitos sociais profundos.
Reconhecimento Tardio
No contexto cultural do Rio de Janeiro, Rosa enfrentou resistência. O Jornal do Brasil, com linhas editorialistas lideradas por poetas concretistas, lançou uma série de ataques ao autor de “Grande Sertão: Veredas”. “Acredita em Guimarães Rosa?”, questionava o jornal, que selecionava escritores que quase sempre negavam a relevância do autor.
“O Globo foi muito importante nesse período”, finaliza Nossa. Para Rosa, era um espaço de experimentação e liberdade criativa, mesmo enquanto parte da crítica tentava rotulá-lo como um autor do passado. Na verdade, ele continuava a produzir uma obra que hoje é considerada inovadora e à frente de seu tempo.


