Conflito eleva custos e limita oferta global de alumínio
O conflito no Golfo Pérsico provocou um aumento expressivo nos preços do alumínio, pressionando toda a cadeia produtiva do metal. A elevação ocorre principalmente pela disparada dos custos de energia, especialmente do gás natural, insumo crucial para a indústria do alumínio. Antes da guerra, cerca de 20% do gás natural comercializado mundialmente passava pelo Estreito de Ormuz, região estratégica que teve sua oferta reduzida com o conflito.
Como consequência, os contratos futuros do gás TTF, negociados em Amsterdã, atingiram € 87 por megawatt-hora (MWh) em meados de outubro, o maior patamar desde dezembro de 2022, acumulando alta superior a 170% desde o início do ano. Além disso, a produção de alumínio na região do Golfo, responsável por cerca de 9% da produção mundial, permanece limitada devido a restrições em países como o Catar, que viram suas instalações afetadas.
Perspectivas e desafios no mercado global
Um relatório do Bank of America (BofA) divulgado no fim de setembro indica um déficit global de alumínio para 2026. O documento destaca que a demanda reprimida, causada pela incerteza gerada pelas tarifas impostas pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump, tem adiado decisões de compra. Caso essa demanda se concretize, a London Metal Exchange pode não estar preparada para absorvê-la, já que os estoques da bolsa estão nos níveis mais baixos desde os anos 1990.
Outro ponto crítico é que quase todo o estoque disponível é da companhia russa Rusal, tornando-o menos atrativo para consumidores nos Estados Unidos e na Europa diante do risco de novas sanções. Essa conjuntura aumenta a pressão sobre preços e abastecimento no mercado global.
Produção brasileira enfrenta desafios energéticos
Marcelo Mello, responsável pela área de metais da StoneX Brasil, resume a relação entre energia e alumínio: “Alumínio é energia empacotada”. No Brasil, essa dependência ficou clara em agosto, quando a Norsk Hydro reduziu pela metade a produção de alumina na Alunorte, em Barcarena (PA), após a interrupção do fornecimento de gás natural. A alumina, extraída da bauxita, é a matéria-prima essencial para produzir alumínio.
Leia também: Estação das Docas Comemora 26 Anos com Programação Cultural Imperdível em Belém
Fonte: belembelem.com.br
Leia também: Circuito Liga da Cultura Leva Educação e Sustentabilidade a Quatro Escolas de Salvador
Fonte: daquibahia.com.br
A Hydro reconhece a alta internacional dos preços do alumínio e uma oferta mais restrita do metal primário no Brasil, mas afirma não haver sinais de escassez interna. A Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), por sua vez, mantém a produção sustentada por 21 usinas hidrelétricas próprias, estratégia que ajuda a mitigar riscos energéticos. A empresa não comentou o assunto devido a período de silêncio.
A Alcoa, que ampliou sua presença no Brasil com a aquisição de ativos da mineradora australiana South32 por US$ 4,1 bilhões, também sinaliza que custos maiores de matérias-primas e manutenções planejadas afetarão seus resultados globais. A companhia não se pronunciou sobre o tema.
Reciclagem ganha espaço e reduz vulnerabilidade
A região Norte do Brasil, especialmente o Pará, é estratégica para a extração da matéria-prima e produção do alumínio, impulsionada pela hidrelétrica de Tucuruí desde os anos 1970. Contudo, a indústria brasileira tem ampliado a produção a partir da reciclagem de sucata, que demanda até 95% menos energia que o alumínio primário.
Em 2025, o Brasil produziu 2,296 milhões de toneladas de alumínio, sendo 1,016 milhão de toneladas de metal primário e 1,18 milhão a partir de sucata reciclada. O consumo nacional no mesmo período foi de 1,9 milhão de toneladas. Essa base sólida de reciclagem torna o país menos vulnerável à instabilidade do mercado internacional.
Impacto nos preços das latinhas e autossuficiência nacional
A alta do alumínio internacional já reflete no preço das latinhas, usadas principalmente no setor de bebidas. Relatórios recentes do Citi indicam que um conflito prolongado pode pressionar os custos da Ambev, uma das maiores fabricantes. O segmento de embalagens vendeu 34,1 bilhões de unidades em 2025, segundo a Associação Brasileira da Lata de Alumínio (Abralatas), sendo o segundo maior volume da série histórica.
O Brasil recicla quase 100% das latas consumidas, e o preço do quilograma das latinhas acompanhou a alta global, subindo de R$ 8 em janeiro para R$ 12 em agosto, recuando para R$ 11 em outubro. Desde 2022, o país é autossuficiente em alumínio, com as latinhas correspondendo a cerca de 40% do metal reciclado nacionalmente.
Setores da construção e transporte sentem efeitos variados
Na construção civil, o alumínio compõe cerca de 3% do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC). Embora os preços internacionais tenham subido, os impactos ainda não se refletem plenamente nos custos nacionais, segundo Ana Maria Castelo, do FGV IBRE.
No transporte, o consumo de alumínio no Brasil cresceu 26% entre 2021 e 2024, impulsionado pelo interesse em veículos elétricos, que buscam reduzir peso e emissões de carbono.
Demanda chinesa e desafios para o setor nacional
A China consome mais de 60% do alumínio mundial e representa um desafio para a autossuficiência brasileira. As exportações brasileiras de sucata para a Ásia aumentaram 135% entre 2021 e 2024, com 80% da sucata destinada ao continente.
Janaína Donas, presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), destaca que o Brasil é um importador líquido de sucata, dependendo dessas remessas para suprir a demanda interna. As disputas tarifárias e o aumento da demanda chinesa complicam o cenário para o setor nacional, que precisa equilibrar oferta e consumo para manter a estabilidade.


