O retorno de Secchin à poesia
Antonio Carlos Secchin, o imortal da Academia Brasileira de Letras, faz uma brincadeira ao afirmar que “o culpado” sempre retorna ao local do crime. Após um hiato de nove anos desde seu último livro de poesia, “Desdizer”, o autor apresenta sua nova antologia, intitulada “Desmentir” (Patuá), que será lançada nesta terça-feira (5), às 17h30, na ABL. Nesta obra, Secchin revela 32 poemas inéditos, abrangendo diversas formas, desde versos livres até composições com métrica regular.
Durante o intervalo entre seus dois lançamentos, o carioca dedicou-se à reflexão e à teorização da literatura, como demonstram seus ensaios, incluindo “Papéis de prosa: Machado & Mais”. Agora, ele retorna ao seu ofício primordial: a poesia. Mas como foi esse processo de redação?
Processo criativo e descoberta poética
“A poesia sempre foi o núcleo preferido de minha produção”, afirma Secchin. Entretanto, ele confessa que a guardava em um local tão reservado que, muitas vezes, se esquecia de onde a havia escondido. Esse esquecimento, por sua vez, resultava na sensação de que a poesia também havia se esquecido dele. Mesmo assim, nunca deixou de buscá-la em outros formatos, como resenhas, ensaios ou palestras.
Leia também: Câmara Aprova Reconhecimento da Poesia do Pajeú como Patrimônio Cultural Nacional
Leia também: Exposição Celebrativa do Dia Mundial da Poesia em Marília
A produção poética de Secchin é modesta. No final de 2025, ele percebeu que acumulava dezenas de poemas semi-prontos e versos soltos. “O que fazer com isso? Deletar tudo ou tentar convertê-los em poemas legíveis?” Ele decidiu reunir os poucos que já considerava prontos com os novos que surgiram desse acervo de fragmentos.
A busca pela forma poética
Dessa forma, nasceram as duas primeiras seções do livro: “Desmentir” e “Dez sonetos malcriados”. A terceira seção, um bestiário chamado “Abecebicho”, foi um desafio em que criou quadras em redondilhas, listando animais de A a Z. Para sua surpresa, o conjunto foi escrito em tempo recorde: uma semana, ao invés dos três ou quatro anos que normalmente gastaria.
“Desmentir” contém o verso intrigante: “Setenta anos / e ainda em recomeço”. Para Secchin, o livro se configura como um recomeço em sua trajetória poética. Ele reconhece um preconceito na literatura em relação à capacidade criativa dos escritores após certa idade, valorizando o conceito de recomeço. Contudo, ele destaca que esse recomeço não deve ser linear, mas deve partir de um lugar inexplorado.
Leia também: Céu da Língua: A Poesia de Gregório Duvivier em Cena
Leia também: V Festival Piano & Canto: Ouro Preto e Belo Horizonte Celebram Música com Emoção
Fonte: belzontenews.com.br
Pontes entre obras: de “Desdizer” a “Desmentir”
Sobre as conexões entre “Desdizer” (2017) e “Desmentir” (2026), Secchin observa que o prefixo “Des” é um ponto de contato entre os dois títulos. Este prefixo sugere ações em sentidos opostos, como montar/desmontar e aparecer/desaparecer. No entanto, em “desmentir”, o “des” não necessariamente se relaciona à verdade. É possível desmentir algo para criar uma nova narrativa, tornando o “desmentido” um conceito que pode significar o oposto do que se supunha. Ele brinca, dizendo que espera que o próximo livro não seja intitulado “Desligar”, pois isso significaria encerrar a aventura literária.
O humor e a variedade na poesia
O livro de Secchin também é marcado por toques de humor, com referências a poetas como Leminski e Nicanor Parra. O autor aponta que as oposições como “densidade” e “leveza” são frequentemente dissolvidas na poesia, que busca a conciliação entre clareza e criatividade. Ele menciona que a aspiração é ser ao mesmo tempo raro e claro, evitando a superficialidade das palavras vazias.
A obra reúne sonetos, haicais, poemas em prosa e versos livres, refletindo a ideia de que a forma poética continua sendo um campo fértil para a experimentação. Secchin argumenta que a dificuldade não está apenas em encontrar um estilo próprio, mas em se libertar dele, permitindo que a multiplicidade de vozes poéticas se manifeste.
A liberdade da poesia
Para Secchin, a poesia oferece uma miragem de liberdade, permitindo que tudo possa ser dito sem protocolos. Ele acredita que o poema é uma forma de canalizar a potência da linguagem, um espaço temporal que desafia a correria da vida moderna. “O ritmo é fundamental na poesia, sendo o oposto da simultaneidade do agora que consome o passado e ignora o futuro”, conclui, reafirmando que, mesmo diante da indiferença do leitor, a busca pela expressão poética continua viva.


