O Impacto dos Hormônios no Emagrecimento
O emagrecimento após a menopausa pode ser mais complicado para muitas mulheres, envolvendo não apenas disciplina, mas também profundas mudanças fisiológicas. As alterações hormonais afetam o metabolismo, favorecendo o acúmulo de gordura e influenciando o apetite, além de estarem ligadas a riscos aumentados de doenças como diabetes tipo 2 e problemas cardiovasculares.
Um estudo recente da Mayo Clinic, uma respeitável instituição focada em saúde e pesquisa, publicado na revista The Lancet, trouxe à tona um novo dado: mulheres na pós-menopausa que combinaram terapia hormonal com a tirzepatida, um medicamento utilizado no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, conseguiram uma perda de peso até 35% maior em comparação àquelas que recorreram apenas ao fármaco.
Esses resultados reacenderam o debate sobre os obstáculos enfrentados no emagrecimento nesta fase da vida e o papel que a terapia hormonal pode desempenhar nesse processo. A doutora em Fisiologia da Reprodução, Isabelle Rodrigues dos Santos, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, que investiga os efeitos da terapia hormonal em modelos animais de perimenopausa, afirma que a dificuldade para emagrecer nesta fase é atribuída a diversos fatores, principalmente à queda dos níveis de estrogênio. “Com a diminuição deste hormônio ao longo da vida, especialmente durante a perimenopausa e a menopausa, ocorrem modificações na composição corporal, como aumento da gordura, especialmente na região abdominal, perda de massa muscular e alterações no metabolismo como um todo. Não se trata apenas de estilo de vida, mas de uma base fisiológica que dificulta o controle do peso nesse período”, analisa.
A Resposta ao Estresse e seus Efeitos Metabólicos
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De acordo com Isabelle, a resposta ao estresse também é um fator que impacta o metabolismo durante a menopausa. “Esse período não envolve apenas mudanças hormonais, mas também sintomas como ondas de calor, sudorese noturna e insônia, que afetam diretamente o bem-estar da mulher. A má qualidade do sono pode gerar mais ansiedade e desconforto físico, o que impacta negativamente a motivação para manter hábitos saudáveis, como uma alimentação equilibrada e a prática de exercícios. Esses fatores contribuem para o ganho de peso e dificultam o emagrecimento”, destaca.
A Terapia Hormonal como Aliada
Nesse cenário, a terapia hormonal é vista como uma maneira de amenizar a resposta ao estresse, melhorando os sintomas da menopausa e favorecendo uma rotina de vida mais saudável. “Com a terapia, as mulheres podem melhorar desde a qualidade do sono até a capacidade de manter uma alimentação equilibrada. Embora não seja um tratamento direto para emagrecimento, a terapia hormonal pode criar um ambiente mais favorável ao controle de peso, já que atua nos níveis de estrogênio, ajudando a regular o metabolismo de forma geral”, explica a pesquisadora.
Para o ginecologista Rui Alberto Ferriani, também professor da FMRP, a terapia hormonal é recomendada principalmente para mulheres que apresentam sintomas vasomotores, como as ondas de calor, ou problemas de atrofia genital. Nesses casos, o estrogênio é considerado a opção mais adequada. No entanto, a terapia não é indicada para todas as pacientes, especialmente aquelas que apresentam contraindicações, como cânceres que dependem de estrogênio, além do risco elevado de trombose. “Toda decisão sobre o tratamento deve ser cuidadosa, considerando as indicações e contraindicações. A terapia hormonal é especialmente indicada para mulheres com sobrepeso ou obesidade, que enfrentam alterações metabólicas”, explica Ferriani.
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Novas Evidências sobre a Tirzepatida
Ferriani observa que a tirzepatida é indicada principalmente para pacientes com obesidade ou sobrepeso que apresentam repercussões clínicas, independentemente de estarem na menopausa. “Recentemente, surgiu uma relação entre os potenciais benefícios da medicamento para a perda de peso em mulheres em tratamento hormonal, mas as indicações permanecem as mesmas: os sintomas vasomotores para a terapia hormonal e a questão do controle de peso para a tirzepatida”, comenta.
Isabelle ressalta que ambas as abordagens atuam por mecanismos distintos, mas que podem ser complementares. “O estrogênio ajuda a modular mecanismos de controle do apetite, potencializando os efeitos de medicamentos como a tirzepatida. Contudo, é preciso lembrar que se trata de um estudo observacional, e não podemos afirmar uma relação de causa e efeito, apenas uma possível associação entre os dados apresentados”, alerta.
A Importância de Mudar Hábitos de Vida
Para mulheres que enfrentam dificuldades em perder peso, Ferriani enfatiza que a mudança de estilo de vida é fundamental. “Não adianta pensar em medicamentos sem uma alteração nos hábitos. Isso inclui uma dieta controlada e atividade física regular. Esses são os pilares do tratamento. Os remédios devem ser considerados apenas como um suporte, pois sem mudanças no estilo de vida, a tendência será o ganho de peso após a suspensão do tratamento. Os medicamentos devem ser utilizados sob orientação médica, especialmente em casos de comprometimento metabólico, pois uma perda de peso adequada pode beneficiar essas pacientes”, conclui o ginecologista.
Entendendo a Perimenopausa e Menopausa
Isabelle explica que a perimenopausa é um período de transição que pode durar até dez anos, geralmente a partir dos 45 anos, marcando o fim da fase reprodutiva feminina. A menopausa é diagnosticada retrospectivamente, ou seja, a mulher é considerada na menopausa quando não menstruou por um ano. “Na perimenopausa, a maioria dos sintomas se manifesta, com ciclos menstruais irregulares e alterações na intensidade do sangramento, o que pode gerar dúvidas. Portanto, é essencial o acompanhamento clínico, aliado a exames hormonais, para um diagnóstico adequado”, finaliza.


