Arte e Ressocialização no Sistema Prisional Paulista
São Paulo abriga mais de 214 mil pessoas privadas de liberdade distribuídas em cerca de 180 unidades prisionais. Nesse contexto, um desafio persistente é a distância entre o que a legislação determina em termos de educação, cultura e ressocialização e o que efetivamente ocorre dentro dessas instituições, agravado pela superlotação. A partir dessa realidade, projetos que unem universidade pública, arte e sistema prisional buscam oferecer respostas práticas e replicáveis a essa problemática estrutural.
Um exemplo notável é o curso de extensão “Teatro, Prisão e a Busca por Novos Imaginários Possíveis”, promovido pela Universidade de São Paulo (USP). Em atividade desde 2024 na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), o projeto qualifica educadores para atuar com teatro em prisões e unidades socioeducativas, integrando prática artística, formação crítica e políticas de reinserção social.
Formação Continuada e Parcerias Estratégicas
A iniciativa surgiu a partir da pesquisa de doutorado de Murilo Gaulês, que atualmente coordena o curso, com supervisão acadêmica da professora Helena Bastos. O foco está em estabelecer práticas culturais contínuas dentro das instituições de privação de liberdade, evitando que o teatro seja visto apenas como uma atividade isolada. A proposta é formar educadores que possam atuar permanentemente em prisões e unidades socioeducativas, articulando a universidade, o sistema de justiça e redes de apoio social.
Além disso, o projeto realiza ações de acolhimento a egressas do sistema prisional em parceria com organizações como a AMPARAR (Associação de Amigos e Familiares de Presos/as) e o Coletivo Por Nós. Essa articulação fortalece a rede de suporte para pessoas que buscam reconstruir suas vidas fora das unidades prisionais.
Contexto Legal e Desafios na Implementação
Desde a Resolução nº 391/2021 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a política de remição de pena reconhece formalmente as atividades educativas e culturais no sistema prisional. Contudo, sua aplicação depende de iniciativas locais, convênios e projetos que geralmente têm curta ou média duração. Isso resulta em um acesso desigual e fragmentado à cultura e educação dentro das prisões, variando significativamente entre unidades.
Nesse cenário, o curso da USP atua simultaneamente em três frentes: formação de estudantes de graduação e pós-graduação em artes cênicas; intervenção prática em unidades prisionais e socioeducativas; e articulação com redes de apoio a pessoas egressas do sistema prisional.
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Funcionamento e Metodologia do Projeto
Atualmente, o curso está presente em quatro unidades prisionais e uma unidade da Fundação CASA, além de promover atividades abertas à comunidade universitária e a pessoas que passaram pelo sistema prisional. As oficinas são conduzidas por estudantes e educadores em formação, supervisionados por docentes, com foco em práticas teatrais, expressão corporal, escuta ativa e construção coletiva de narrativas.
O objetivo vai além do ensino de teatro. A linguagem cênica é usada como uma ferramenta para o trabalho coletivo em ambientes marcados por controle, vigilância e ruptura de vínculos sociais. O projeto também integra o Observatório de Práticas Artísticas no Cárcere e em Espaços de Privação de Liberdade, uma rede internacional que permite a troca de metodologias com experiências similares em outros países.
Impactos na Vida de Jovens e Comunidades
Uma das vertentes mais sensíveis da iniciativa envolve o trabalho em unidades socioeducativas e o acompanhamento de jovens em cumprimento de Prestação de Serviços à Comunidade (PSC) na própria USP. Profissionais que acompanham o projeto destacam que o impacto inicial não foi pedagógico, mas simbólico: o estranhamento dos jovens em relação ao ambiente universitário.
Victor Serra, técnico de medida socioeducativa no serviço do Rio Pequeno (SP), comenta que a USP era vista como um espaço elitista e distante, apesar da proximidade física com as comunidades desses jovens. Esse distanciamento é social e histórico, ligado ao acesso desigual à educação e à cidade.
Com o tempo, a participação nas oficinas de teatro e o diálogo crítico sobre sistema de justiça e políticas públicas modificaram essa percepção. Os jovens passaram a identificar com mais clareza diversas formas de opressão, como racismo, ausência de políticas públicas e violência institucional, relacionando essas questões às suas próprias experiências. Essa compreensão ampliou a visão deles sobre a medida socioeducativa, transformando não apenas sua condição, mas sua postura enquanto indivíduos.
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Experiência Transformadora para Estudantes e Participantes
Fernanda Pio, estudante envolvida no projeto, relata que seu ingresso ocorreu por meio de redes sociais, mas sua relação com o tema já vinha de pesquisas anteriores. Para ela, o curso representou um divisor de águas, ao transitar do debate teórico para a atuação direta com pessoas impactadas pelo sistema prisional, dentro e fora das unidades.
Fernanda já participou de saídas temporárias de mulheres presas, oficinas na Fundação CASA e atividades com movimentos sociais ligados ao sistema prisional. Essa vivência a fez adotar o abolicionismo como uma lente permanente para compreender o mundo.
Resultados e Desafios Para o Futuro
Nas unidades prisionais e socioeducativas, os efeitos do projeto são graduais, concentrando-se principalmente na convivência e na dinâmica dos grupos. Uma responsável por uma das instituições atendidas destaca que as aulas ampliam o acesso à cultura e apresentam realidades desconhecidas, abrindo horizontes e renovando a esperança de um futuro melhor.
Os avanços mais visíveis acontecem em habilidades como comunicação, expressão e interação social, além de aspectos emocionais como acolhimento, autoestima, integração e protagonismo.
Apesar dos resultados positivos, o projeto ainda atua em escala reduzida diante da dimensão do sistema prisional paulista. Sua continuidade depende de financiamento, editais, equipes dedicadas e articulação institucional constante, fatores que podem variar com o tempo.


