O aumento do uso de cigarros eletrônicos entre jovens
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 (PeNSE 2024), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou que quase 30% dos estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos já experimentaram cigarros eletrônicos. Conhecidos também como e-cigarettes, vaporizadores, vapes e pods, esses dispositivos têm sua comercialização, importação, fabricação e propaganda proibidas no Brasil desde 2009, por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Em comparação ao levantamento de 2019, quando 16,8% dos adolescentes haviam experimentado o produto, o crescimento é expressivo: um salto de quase 13 pontos percentuais em cinco anos. Para Jaqueline Scholz, diretora do Programa de Tratamento do tabagismo do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, o cigarro eletrônico é uma “grande ilusão”. Ela explica que a indústria criou uma falsa sensação de segurança, apresentando o dispositivo como uma alternativa recreativa e menos nociva ao cigarro convencional.
Engano por trás da propaganda e atrativos para jovens
Ao contrário do que a indústria sugere, os cigarros eletrônicos contêm níveis maiores de nicotina do que os cigarros tradicionais. Além da nicotina, esses produtos podem conter cerca de 2.000 substâncias diferentes, incluindo metais pesados como cobre e níquel, o que lhes confere um alto potencial de dependência. O design colorido, com tons pastéis e sabores que remetem à infância, aliado a telas touchscreen e jogos, cria uma estratégia clara para atrair o público jovem, mascarando os riscos como inofensivos.
Jaqueline destaca: “Foi desenhado para o jovem. Embora a indústria afirme que é para substituir o cigarro convencional, ele entrou na cabeça das pessoas como algo que pode ser usado sem os mesmos riscos do cigarro comum.” Essa estratégia, que inicialmente levou países como Inglaterra a incentivarem o consumo, enfrenta agora um revés. Em 2026, o Reino Unido aprovou uma lei que proíbe a venda de cigarros para quem nasceu a partir de 1º de janeiro de 2009, além de restringir a venda de e-cigarettes para menores de 18 anos e o uso próximo a escolas e hospitais.
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Fonte: gpsbrasilia.com.br
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Fonte: belzontenews.com.br
Riscos à saúde cardiovascular e mental
O consumo da nicotina traz prejuízos significativos ao organismo. Entre os efeitos cardiovasculares, estão o aumento do risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), pressão arterial elevada e frequência cardíaca acelerada. Além disso, a nicotina está associada a complicações na saúde bucal, maior risco para diabetes, câncer de pâncreas e danos pulmonares.
Nos vaporizadores, a nicotina é apresentada em forma de sal sintético, que ao ser aquecido e inalado, rapidamente se conecta ao sistema nervoso central, ativando receptores que liberam dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. Segundo o pesquisador Henrique Bombana, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, essa liberação rápida e passageira gera a dependência que torna difícil o abandono do hábito.
Os impactos não param no corpo: o uso precoce de nicotina está ligado a maior incidência de ansiedade e depressão em jovens, devido à interferência na maturação do córtex pré-frontal, responsável pela tomada de decisões conscientes. Jaqueline Scholz ressalta que os sintomas comportamentais, como isolamento e perda de interesse em atividades físicas, podem ser sinais de alerta para o consumo de cigarros eletrônicos.
Como identificar e tratar o uso entre adolescentes
O diálogo aberto entre pais e filhos é fundamental para identificar o uso de cigarros eletrônicos e evitar o desenvolvimento da dependência. Jaqueline orienta que, muitas vezes, os jovens não se sentem seguros para revelar o uso, e uma conversa franca pode mostrar os riscos reais e incentivar a busca por ajuda.
O tratamento para parar de usar cigarros eletrônicos segue o mesmo protocolo do tabagismo tradicional, baseado em três pilares: suporte à saúde mental, uso de medicamentos para controle da abstinência e a técnica chamada Fumar Restrito. Esta última consiste em limitar o consumo a momentos específicos, isolando o ato para reduzir o comportamento automático e o consumo excessivo.
Jaqueline explica que a dependência envolve tanto a necessidade química da nicotina quanto o uso como mecanismo para lidar com ansiedade e estresse. Por isso, o acolhimento emocional é essencial durante o tratamento, assim como o uso correto de medicamentos que ajudam a controlar a abstinência, já que o remédio para nicotina não substitui o tratamento do humor. A técnica do Fumar Restrito ajuda o paciente a ter consciência do ato e a diminuir gradualmente o consumo, preparando-o para a reposição de nicotina.
O avanço do consumo de cigarros eletrônicos entre jovens exige atenção da rede pública de saúde, profissionais e familiares para prevenir danos e oferecer tratamento eficaz. Com informação clara e estratégias adequadas, é possível enfrentar esse desafio e preservar a saúde das novas gerações.


