Dom Roberto questiona decreto de Flávio Bolsonaro sobre Brasil ser ‘do senhor Jesus Cristo’
O bispo dom Roberto Francisco Ferreira Paz, da diocese de Campos, manifestou preocupação sobre a declaração do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que anunciou a intenção de decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo. Em vídeo divulgado em agosto, Flávio justificou sua ausência no debate da TV Bandeirantes afirmando que preferia discutir com quem “não acredita em Deus”.
Dom Roberto aponta que essa decisão, anunciada como o primeiro ato de governo, é perigosa por envolver a liberdade das demais religiões. “O que pode significar isso para a liberdade religiosa e para os religiosos não-cristãos? Haverá privilégios para os cristãos?”, questiona o bispo, que também atua na Pastoral da Saúde e na Comissão para o Laicato da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Ele destaca que a liberdade religiosa é um princípio constitucional que deve ser preservado para todas as crenças.
Conflito com a CNBB e contexto histórico
A assessoria de Flávio Bolsonaro esclareceu que o candidato pretende “fazer uma oração antes de ler o termo de posse quando assumir a Presidência da República, entregando o Brasil nas mãos de Jesus”. Dom Roberto lembra que atitudes similares já ocorreram em outros países, citando o Chile sob Augusto Pinochet nos anos 1970, quando o ditador favoreceu as igrejas evangélicas para enfraquecer a oposição da Igreja Católica, que denunciava as violações cometidas pelo regime.
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O bispo também alerta para a influência de uma doutrina dominacionista originada do fundamentalismo pentecostal radical dos Estados Unidos, que busca hegemonia política do cristianismo evangélico. Flávio Bolsonaro entrou em atrito com a CNBB ao acusar integrantes da entidade de disseminar uma fake news sobre a retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida, o que a conferência negou oficialmente.
Impactos institucionais e pedido de esclarecimentos
Para dom Roberto, o decreto prometido por Flávio representa uma intenção política que pode causar graves consequências. “Não cabe a um candidato a presidente dizer isso. Se ele é cristão, pode fazer uma declaração de fé, mas não pode anunciar um ato que fere a laicidade do Estado brasileiro”, afirma o bispo. Ele reforça que o Estado deve garantir o exercício da fé para todas as religiões, sem adotar confessionalismo.
Além disso, dom Roberto destaca que um presidente de um Estado laico não pode basear suas decisões governamentais em critérios religiosos, nem escolher cargos públicos por alinhamento confessional. A referência é indireta à justificativa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para nomear André Mendonça ao STF.
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O bispo conclui que Flávio Bolsonaro deve esclarecer a dimensão do decreto para evitar que a laicidade e a liberdade religiosa sejam comprometidas, especialmente diante do impacto que essa medida teria para a convivência entre diferentes fé no país.


