Tradição e comunidade além do mar
A cultura coreana frequentemente chega ao Brasil por meio da música, dos dramas televisivos, da gastronomia ou dos cuidados com a beleza. No entanto, algumas das histórias mais profundas e fascinantes da Coreia escapam dos holofotes e das telas para revelar tradições que carregam valores coletivos e ancestrais. É esse universo que a exposição “Sopro do Mar: Jeju Haenyeo, mulheres e coletividade” traz a São Paulo, promovida pelo Centro Cultural Coreano no Brasil.
À primeira vista, a mostra apresenta a tradição das Haenyeo, as mergulhadoras da Ilha de Jeju, conhecidas por coletar frutos do mar sem uso de equipamentos modernos de respiração. Mas, ao se aprofundar, percebe-se que o foco vai muito além do ato de mergulhar: a exposição destaca a importância da comunidade, da cooperação e do cuidado mútuo que sustentam essa prática centenária.
Quem são as Jeju Haenyeo e seu legado
As Haenyeo são mulheres que, há gerações, se lançam nas águas da Ilha de Jeju para colher frutos do mar usando apenas sua habilidade e resistência, sem aparelhos de respiração modernos. A técnica é impressionante, mas o que torna essa tradição mundialmente reconhecida é o sistema de vida que elas construíram, baseado na colaboração, no ensino entre gerações, no respeito ao mar e no apoio mútuo.
Essas mulheres mergulham, aprendem e protegem-se juntas, criando uma rede social que ultrapassa a atividade em si. Em 2016, a UNESCO reconheceu essa prática como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, valorizando não só o trabalho no mar, mas os valores humanos que ele preserva.
“Nenhum sopro é solitário” – O conceito da exposição
O conceito central da exposição gira em torno da frase “Nenhum sopro é solitário”. Em uma sociedade marcada pelo individualismo, a mostra propõe uma reflexão sobre pertencimento, interdependência e cuidado coletivo. O público é convidado a conhecer não apenas a rotina das mergulhadoras, mas a rede de relações que sustenta essa tradição.
Para isso, a exposição reúne fotografias documentais, vídeos, ferramentas usadas no trabalho marítimo, os tradicionais trajes de mergulho chamados mulot, além da reconstrução de espaços simbólicos da cultura Haenyeo. O objetivo é evidenciar como uma comunidade consegue sobreviver e se fortalecer por meio dos vínculos entre seus membros.
Leia também: Niterói recebe o 1º Festival de Cultura Coreana com programação diversificada
Fonte: agazetadorio.com.br
O bulteok: Coração da comunidade Haenyeo
Um dos destaques da mostra é a recriação do bulteok, uma estrutura circular de pedras à beira-mar em Jeju, onde as mergulhadoras se reúnem antes e depois dos mergulhos. É nesse espaço que elas trocam de roupa, secam seus trajes, descansam e aquecem-se ao redor do fogo, compartilhando histórias e experiências.
O bulteok simboliza a comunidade em sua essência: um lugar onde o conhecimento circula e onde o individual se transforma em aprendizado coletivo. Em tempos em que tantas interações ocorrem por telas, essa valorização de espaços de encontro presencial carrega um significado especial.
O som da resistência: o sumbisori
Outro elemento marcante da exposição é o sumbisori, o som característico da respiração das Haenyeo ao emergirem após longos períodos submersas. Para quem não conhece, pode parecer um detalhe, mas para a cultura de Jeju, esse som é uma assinatura coletiva que representa resistência, experiência e sobrevivência.
Nos registros audiovisuais da mostra, o sumbisori se destaca como um símbolo da identidade das mergulhadoras, reforçando a força da tradição que transcende o tempo.
Conexões contemporâneas e diálogo com o Brasil
Em um mundo cada vez mais digital e conectado, cresce também a sensação de isolamento. Histórias como a das Haenyeo ressoam porque lembram que comunidades são formadas por responsabilidade compartilhada, presença e cuidado, não apenas por interesses comuns.
Essa reflexão dialoga com os fenômenos atuais de fandoms, comunidades culturais e movimentos coletivos que surgem globalmente. Espaços vivos são aqueles onde as pessoas sentem pertencimento a algo maior.
A exposição cria ainda uma ponte com o Brasil ao apresentar registros de Lygia Barbosa e Luciano Candisani, que contribuíram para divulgar a cultura Haenyeo no país. Eles participaram do documentário “Haenyeo, A Força do Mar”, exibido pela TV Cultura e National Geographic, aproximando o público brasileiro dessa tradição que fala sobre memória, identidade e comunidade.
Programação e desdobramentos culturais
Além da exposição, o Centro Cultural Coreano promove uma série de encontros e palestras. Entre os convidados está Carlos Gorito, brasileiro radicado na Coreia do Sul e Embaixador Honorário do Turismo de Jeju, e Jinhee Park, curadora da mostra, que aprofundarão o debate sobre a cultura Haenyeo e seu significado contemporâneo.
Para profissionais e interessados em cultura, comunidades e fandoms, o principal legado das Haenyeo não está apenas na técnica do mergulho, mas na construção de uma tradição baseada em confiança, transmissão de saberes e senso de pertencimento.
Em tempos de conexões rápidas e vínculos frágeis, a cultura das Jeju Haenyeo é um lembrete potente de que a resistência pode ser coletiva. A frase norteadora da exposição, “Nenhum sopro é solitário”, reforça que algumas das narrativas mais importantes sobre futuro começam pela valorização da comunidade.
Informações para visitação
Exposição: Sopro do Mar: Jeju Haenyeo, mulheres e coletividade
Local: Centro Cultural Coreano no Brasil – Avenida Paulista, 460, Bela Vista, São Paulo
Período: 12 de junho a 30 de agosto de 2026
Entrada: Gratuita
Horários: Terça a sábado, das 10h às 18h30; domingo, das 11h às 17h
Essa mostra convida o público a mergulhar em uma cultura que, apesar da distância geográfica, provoca reflexões atuais sobre comunidade, identidade e memória.


