Um olhar caleidoscópico sobre a São Paulo noturna
O filme “As Florestas da Noite”, dirigido por Priscyla Bettim e Renato Coelho, chamou atenção na mostra competitiva de Vitória por sua abordagem singular. Ambientado numa São Paulo desolada e noturna, a obra apresenta uma estrutura fragmentária, quase caleidoscópica, composta por histórias independentes que se entrelaçam em momentos pontuais. O personagem de Silvero Pereira conduz o espectador por esse percurso pela metrópole adormecida, revelando as vidas daqueles que habitam as ruas quando a cidade se recolhe.
Filmado em preto e branco, em 35 milímetros, o longa ganha uma atmosfera fantasmagórica que reforça o clima de isolamento e marginalidade. Entre as cenas que se destacam está a de Carlos Francisco, ator mineiro conhecido por “Marte Um”, que interpreta um homem velando a esposa falecida em um ambiente que sugere um bar. A entrada de uma amiga da falecida, que canta uma canção de ninar composta por Dorival Caymmi, traz um momento de ternura interrompido pela tradução em Libras que cobre parte da imagem, o que prejudica a experiência visual e pede uma nova sessão para apreciação plena.
Fragmentação, espaços e narrativas em debate
O filme evidencia um trabalho cuidadoso na construção visual e na abordagem dos personagens, geralmente considerados marginalizados em uma grande cidade impiedosa. Apesar da irregularidade que acompanha formatos fragmentários, há um encantamento nessa decadência, que contrasta com o otimismo artificial de sociedades que parecem ter perdido seu rumo.
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Fonte: triangulodeminas.com.br
Outro destaque da programação é o curta “Ajude os Menor (AL)”, de Janderson Felipe e Lucas Litrento, que aposta em uma ambientação próxima a um faroeste nacional. A trama acompanha um entregador de aplicativo que almoça com pedreiros, trazendo à tona aspirações e desejos, ainda que com um roteiro que carece de desenvolvimento aprofundado. A qualidade das imagens é notável, mas a narrativa deixa uma impressão de incompletude, reflexo talvez da dificuldade em finalizar projetos ou optar por uma estética lacunar.
Representação indígena e críticas ambientais na mostra
O documentário “Floresta do Fim do Mundo (RJ)”, de Denilson Boniwa e Felipe M. Bragança, ganhou destaque não só pelo filme, mas pela presença da atriz e apresentadora Iracema Pankararu. Sua fala no palco, marcada por humor e emoção, foi aplaudida de pé, superando até homenageados de renome como Camila Morgado. O filme narra a vida da indígena Suely, dividida entre a cidade grande e a floresta, sendo parte da “Trilogia das Plantas”, cuja primeira parte não foi exibida nesta edição.
Na vertente documental, “Um Rio não É (ES)”, realizado por Yurie Yaginuma e Amanda Mirante, traz um olhar crítico sobre os impactos ambientais no Rio Doce, em Minas Gerais. Por meio de entrevistas e imagens, o filme denuncia a devastação causada pela mineração e a falta de responsabilidade de empresas e órgãos reguladores, configurando-se como um lamento visual sobre o desastre ambiental e suas consequências irreversíveis.
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Fonte: odiariodorio.com.br
Esses filmes apresentados no festival reforçam a diversidade das narrativas contemporâneas no cinema brasileiro, explorando temas como marginalização urbana, identidade indígena e preservação ambiental, sempre com um olhar sensível e atento às complexidades culturais e sociais.


