Suspensão das Redes Sociais em Órgãos de Saúde
Recentemente, pacientes e usuários das redes sociais do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP foram surpreendidos por uma mensagem oficial. Um comunicado esclarecia que, em cumprimento à legislação eleitoral, os perfis institucionais do Governo de São Paulo estariam temporariamente indisponíveis a partir de 4 de julho, permanecendo assim durante todo o período eleitoral. A reação dos usuários foi imediata, com comentários demonstrando preocupação, especialmente por se tratar de órgãos ligados à saúde pública.
Essa medida não se limitou ao InCor. Perfis do Hospital das Clínicas, do Instituto de Psiquiatria e demais órgãos vinculados ao governo paulista também suspenderam suas atividades nas redes sociais durante o período eleitoral. A justificativa oficial está relacionada às restrições impostas pela legislação eleitoral para evitar o uso da máquina pública em benefício de candidatos. No entanto, a decisão gerou questionamentos sobre a necessidade de interromper a comunicação de serviços essenciais de saúde, que fornecem orientações médicas, informações sobre atendimento, campanhas de prevenção e divulgação de pesquisas científicas.
Entendendo a Legislação Eleitoral e suas Implicações
A legislação eleitoral não proíbe toda comunicação institucional. Conforme explica Luciano Caparroz Santos, advogado eleitoral e diretor do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, as restrições visam impedir que a propaganda pública promova candidatos ou governantes de forma pessoal ou que enalteça políticas públicas para fins eleitorais, indo além do caráter informativo.
Os perfis das instituições de saúde, cujas atividades foram suspensas, são utilizados para divulgar informações relevantes à população, como serviços disponíveis, campanhas de saúde, pesquisas científicas e orientações médicas. Eles também funcionam como canais de comunicação entre pacientes, familiares, profissionais de saúde e pesquisadores.
Segundo Caparroz, algumas administrações interpretam equivocadamente a proibição, entendendo que qualquer comunicação das redes sociais públicas deve ser suspensa. Na verdade, apenas são vedadas as comunicações que favoreçam diretamente algum candidato. A legislação distingue publicidade institucional de informações de interesse público, sendo que campanhas de saúde são consideradas de interesse público e, portanto, não deveriam ser interrompidas.
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Impactos na Transparência e no Acesso à Informação
Organizações dedicadas à transparência pública compartilham essa visão. Juliana Sakai, diretora-executiva da Transparência Brasil, aponta que a suspensão desses canais não só prejudica a transparência, mas também pode afetar o acesso da população aos serviços de saúde.
Ela destaca que o problema reside na forma como a legislação eleitoral tem sido interpretada na prática. Sakai classifica como desproporcional a decisão da administração pública de suspender esses perfis, criticando a falta de aprimoramento na implementação do período de restrição eleitoral pela Justiça Eleitoral.
Antes mesmo do atual processo eleitoral, a Transparência Brasil, por meio do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, e a Controladoria-Geral da União já haviam apresentado sugestões ao Tribunal Superior Eleitoral para melhorar as regras sobre comunicação institucional em períodos eleitorais, mas essas propostas não foram incorporadas.
Posicionamento da Secretaria de Comunicação de São Paulo
Questionada, a Secretaria de Comunicação do Estado de São Paulo afirmou que as orientações adotadas durante o período eleitoral seguem a legislação vigente e as diretrizes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A pasta ressaltou que órgãos responsáveis por serviços essenciais e de utilidade pública, como unidades de saúde, podem manter seus canais digitais ativos, desde que respeitem as restrições eleitorais.
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A Secretaria acrescentou que as informações sobre serviços públicos continuam disponíveis nos sites oficiais dos órgãos e em canais institucionais do governo, como a Agência SP. Contudo, na prática, perfis como os do Instituto de Psiquiatria e do Hospital das Clínicas já estão fora do ar. Quem tenta acessar essas páginas encontra avisos de indisponibilidade ou comunicados informando a suspensão temporária das atividades nas redes sociais, além de conteúdos antigos, como no caso do InCor.
Contradições e Possíveis Consequências da Suspensão
Essa situação evidencia uma contradição. A resposta da Secretaria de Comunicação reforça que a legislação eleitoral não exige necessariamente a interrupção completa da comunicação institucional de órgãos que prestam serviços à população. De acordo com Caparroz, as restrições eleitorais não deveriam impedir a divulgação de conteúdos úteis para os usuários.
Ele alerta que a suspensão pode causar prejuízos e defende a manutenção desses perfis com informações essenciais e permitidas, garantindo que a população tenha acesso a dados relevantes sobre serviços de saúde, sem que haja propaganda irregular de candidatos.
Assim, surge o desafio de equilibrar o cumprimento das regras eleitorais com a necessidade de manter canais de comunicação abertos para o público, especialmente em áreas sensíveis como saúde pública, onde o acesso à informação pode influenciar diretamente o bem-estar e a segurança da população.


