Desmonte cultural e ameaças a coletivos periféricos em São Paulo
A administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP) tem provocado impactos profundos no cenário cultural da capital paulista. A derrubada inesperada de espaços emblemáticos, como o Teatro Ventoforte, em fevereiro de 2025, reverbera como um sinal claro da direção tomada pela gestão. Reconhecido internacionalmente por sua dramaturgia inovadora voltada ao público infantil e juvenil, o Ventoforte foi demolido sem qualquer aviso prévio, revelando um padrão autoritário e pouco transparente.
Na mesma ação, a Escola de Capoeira Angola Cruzeiro do Sul, fundada pelo Mestre Meinha e referência da cultura afro-brasileira com mais de quatro décadas de história, também foi destruída. Importante destacar que o terreno dessas instituições é tombado pelo Condephaat desde 1995, órgão que não foi consultado antes das demolições.
Outros espaços culturais pressionados e removidos
Após esses episódios, o Teatro de Contêiner Mungunzá, localizado na região da Luz, foi notificado para desocupar o terreno onde atuava há dez anos, abrigando coletivos sociais e espaços comunitários. Em março de 2026, o local foi demolido, após batalhas judiciais e tentativas frustradas de diálogo com a Prefeitura, evidenciando a fragilidade do suporte oficial a esses coletivos.
O Teatro Popular União e Olho Vivo, reconhecido como o teatro popular mais antigo da América Latina em funcionamento desde 1966 no Bom Retiro, também está na mira da gestão. Um decreto municipal prevê sua remoção para a construção do Boulevard Marquês de São Vicente, atualmente em processo licitatório. Além do teatro, o local ainda abriga uma lona de circo, que integra a história cultural da região.
Outro espaço ameaçado é o Grêmio Esportivo e Recreativo Cruz da Esperança, sede do tradicional Samba do Cruz, na zona norte da cidade. Desde 1979, o local é ponto de encontro para clubes de várzea e manifestações culturais locais. A Prefeitura promoveu ação de despejo após entregar a área a iniciativa privada com a justificativa de criar um novo parque.
Cortes no orçamento e transparência questionada
Além da perda física desses espaços, a política cultural paulistana enfrenta dificuldades orçamentárias e falta de clareza na gestão dos recursos. Em 2025, R$ 37,1 milhões previstos para fomentar a cultura deixaram de ser executados. Dos R$ 159,7 milhões destinados a quinze modalidades de fomento, apenas R$ 122,6 milhões foram empenhados, com a maioria dos programas recebendo valores abaixo do planejado.
Em março de 2026, o Decreto nº 65.010/2026 agravou a situação ao cortar R$ 70,6 milhões do Fundo Municipal de Cultura, quase eliminando o orçamento para Fomento às Linguagens Artísticas, que ficou com apenas R$ 60,2 mil para o ano.
Investigações da Agência Pública, por meio da série “Festival de irregularidades”, apontam ainda para inconsistências em contratos da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), envolvendo 66 shows e um total de R$ 4,2 milhões entre 2023 e o primeiro semestre de 2025. A maioria das contratações suspeitas ocorreu durante a campanha eleitoral de reeleição de Nunes, com pagamentos liberados mesmo antes da realização dos eventos.
Curiosamente, artistas com pouca visibilidade pública receberam cachês superiores a nomes consagrados, violando regras municipais. Ao menos 14 músicos com baixa audiência em plataformas digitais custaram R$ 5,1 milhões aos cofres públicos nesse período.
Impacto nas políticas de inclusão e cultura periférica
Daniel Fagundes, coordenador de coletivo audiovisual na zona sul, relata que os avanços conquistados em gestões anteriores, especialmente na captação de recursos e políticas de cotas para grupos negros, indígenas e LGBTQIA+, estão sendo desfeitos. “Sob Ricardo Nunes, o diálogo se fechou e houve um desmonte das políticas de reparação histórica e inclusão”, afirma.
Fagundes destaca que, embora as cotas ainda existam, seu alcance diminuiu significativamente. A mudança também afetou a presidência da Spcine, que teve figuras importantes como Viviane Ferreira e Lyara Oliveira, mulheres negras engajadas na diversidade cultural. “A pressão de grupos tradicionais tem enfraquecido essas políticas, prejudicando o acesso de coletivos periféricos a editais e recursos públicos”, completa.
No campo prático, coletivos periféricos recorrem a vaquinhas online para realizar eventos culturais, enquanto a nova liderança da Spcine se distancia das políticas de cotas, refletindo um cenário de exclusão e enfraquecimento da diversidade.
Desafios da política cultural e defesa dos espaços comunitários
Luna Zarattini (PT-SP), vereadora e presidenta da Comissão de Direitos Humanos, ressalta a luta histórica para garantir ao menos 3% do orçamento municipal para a cultura. Para ela, sem orçamento, não há política pública efetiva. “A Prefeitura tem priorizado grandes eventos em detrimento das políticas estruturantes e do apoio a entidades e coletivos que atuam nas periferias”, observa.
Desde o início da gestão, Zarattini acompanha resistências contra a privatização de casas de cultura e a perseguição a teatros tradicionais. Ela destaca o caso do Cruz da Esperança, um espaço cultural e esportivo ameaçado por uma tentativa de concessão à iniciativa privada, refletindo um movimento mais amplo de privatizações em locais como os parques do Ibirapuera e da Água Branca.
Os Centros Educacionais Unificados (CEUs) também sofrem com terceirizações e desarticulações que limitam o acesso da população culturalmente ativa às suas instalações, como teatros e cinemas, especialmente nos finais de semana.
Carnaval de rua e a desigualdade no apoio cultural
Outro ponto crítico é o tratamento desigual dado ao carnaval de rua. Enquanto os megablocos com grandes patrocínios recebem incentivo, os blocos de bairro enfrentam escassez de apoio e até perseguições por parte da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar.
“Temos um projeto excludente que ataca quem faz cultura na cidade, e falta diálogo para construir uma São Paulo mais humana e diversa”, afirma Zarattini, defendendo a participação popular como chave para retomar a cultura como prioridade na capital paulista.


