Análise das Implicações da Capitalização
A capitalização da Raízen, que recebeu um investimento significativo de R$ 3,5 bilhões da Shell e R$ 500 milhões da Cosan, marca o início de um processo de reestruturação financeira. Especialistas consultados pelo GLOBO indicam que essa movimentação deve ocorrer dentro de um cenário de recuperação extrajudicial, o que pode resultar em menos prejuízos para os credores. Somente após essa etapa será possível avaliar a magnitude da diluição que os controladores terão em suas participações de 44% na Raízen.
O advogado André Moraes, sócio do Moraes & Savaget Advogados, acredita que a injeção de R$ 4 bilhões representa um aporte emergencial, indicando aos credores e ao mercado a busca por soluções mais amenas para a crise. Entre as opções, a recuperação extrajudicial, já sinalizada em comunicado da empresa, é vista como menos agressiva em comparação à recuperação judicial.
Novos Aportes e Propostas em Discussão
O cenário de recuperação extrajudicial pode abrir espaço para novos investimentos dos controladores, incluindo a possibilidade de retorno dos fundos do BTG Pactual às negociações. A definição sobre a participação de cada acionista só será clara após esses novos aportes, segundo Moraes.
Após a injeção dos R$ 4 bilhões, os acionistas demonstraram aos credores sua disposição em compartilhar a responsabilidade pela reestruturação, o que pode incentivar a volta dos fundos do BTG às discussões. É neste contexto que se avaliará qual parte da dívida poderá ser convertida em participação acionária, uma alternativa que parece viável.
Desafios na Reestruturação e Dívidas da Raízen
Antes do investimento, houve um impasse entre os credores e os principais acionistas, Shell e Cosan, que não chegaram a um consenso sobre as propostas de reestruturação. Os credores, por exemplo, buscavam contribuições dos controladores que poderiam chegar até R$ 25 bilhões. A Shell se comprometeu com R$ 3,5 bilhões, mas a Cosan não fez uma contribuição equivalente.
Atualmente, a Raízen enfrenta um fardo de R$ 55 bilhões em dívidas, foi rebaixada por agências de rating e registrou um prejuízo de R$ 15,6 bilhões no terceiro trimestre do ano passado. O alerta sobre uma “incerteza relevante” quanto à sua capacidade de operação também foi emitido recentemente.
Possíveis Impactos na Governança da Raízen
Segundo Marcus Valverde, sócio-fundador do MVSA, se a reestruturação envolver a emissão de novas ações ordinárias de maneira não proporcional entre os acionistas atuais, pode ocorrer uma diluição na participação da Cosan, favorecendo a Shell. No entanto, ele ressalta que, em estruturas desse tipo, aportes desiguais podem ser equilibrados por acordos de acionistas, visando a preservação temporária da governança e dos direitos de voto entre os sócios estratégicos.
Para Thiago Maroli, do NHM Advogados, essa movimentação inicial é fundamental para tentar estabilizar financeiramente a empresa. Contudo, ele alerta que ainda não existem cenários definidos enquanto a reestruturação ampla das dívidas é debatida. Maroli enfatiza que a estrutura do aumento de capital e as potenciais conversões de dívidas em ações poderão gerar uma diluição para os acionistas atuais e afetar o equilíbrio econômico entre Shell e Cosan/Rubens Ometto na joint venture.


