Greve Encerrada com Acordo e Compromissos da Prefeitura
Na última quinta-feira, 21 de maio, terminou a greve dos trabalhadores da educação municipal de São Paulo, que durou pouco mais de três semanas. A categoria decidiu pelo fim da paralisação após um acordo que contempla a negociação dos dias parados e o compromisso da Prefeitura de convocar os aprovados nos concursos recentes, além de realizar novos certames para todos os cargos da rede.
Contexto de Ataques ao Funcionalismo e Privatização
Essa greve ocorre em meio a uma ofensiva nacional contra o funcionalismo público, especialmente na área da educação básica. A pressão das grandes empresas produtoras de materiais didáticos, físicos e digitais, tem aumentado, o que resulta em uma crescente submissão dos educadores às metas empresariais de aprendizagem, comprometendo a autonomia pedagógica.
Em São Paulo, as gestões anteriores transferiram quase todos os serviços públicos para a iniciativa privada, com exceção da educação. Os poucos servidores remanescentes foram realocados para regimes remuneratórios por subsídios, o que desestruturou os planos de carreira.
Crescimento da Gestão Privada nas Creches e Escolas Municipais
Na atual administração do prefeito Ricardo Nunes, a terceirização da gestão dos Centros Educacionais Infantis (CEIs), anteriormente conhecidos como creches, ultrapassou 75%. Muitas dessas unidades enfrentam escândalos envolvendo desvio de recursos e superfaturamento, fenômeno que ficou conhecido como a “máfia das creches”. Além disso, apenas neste ano, três escolas municipais passaram a ser administradas pela iniciativa privada, número limitado apenas pela derrota da Prefeitura na tentativa de impor diretores interventores em 25 unidades no ano anterior.
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Projeto de Lei e Riscos à Educação Pública
Durante a campanha salarial, a Prefeitura aprovou um Projeto de Lei que prevê um reajuste salarial de 3,51% dividido em dois anos, sendo que profissionais em início de carreira terão 0% de aumento no segundo ano. Além disso, a proposta abre brechas para o desmonte do ensino público municipal, autorizando a privatização integral da educação infantil, o aumento de contratos temporários e a criação de uma categoria extremamente precarizada para futuros concursos, com direitos reduzidos.
Outra medida preocupante é o corte de um terço do salário para trabalhadores que adoecem e precisam de readaptação, o que pode impactar diretamente a saúde e a estabilidade dos profissionais.
Mobilização e Disputa Ideológica na Categoria
Frente a esse cenário, a greve reuniu milhares de profissionais, com escolas fechadas e grandes manifestações que chegaram a reunir cerca de 30 mil trabalhadores no dia da votação do Projeto de Lei na Câmara Municipal. A mobilização também teve um caráter de disputa ideológica, buscando conscientizar a comunidade escolar sobre os prejuízos da privatização e a importância de resistir a esse projeto.
Desafios na Liderança Sindical e Organização da Base
Apesar da mobilização, a atuação das direções sindicais majoritárias, à frente do SINPEEM, foi criticada por desestimular a auto-organização da base e esvaziar os espaços de decisão, como as assembleias, que passaram a funcionar quase que como votações formais, muitas vezes manipuladas pela burocracia sindical. Essa postura também dificultou a articulação da categoria com outras lutas sociais, reduzindo o potencial de influência na opinião pública.
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Resistência e Perspectivas Futuras
Mesmo diante da ofensiva neoliberal da Prefeitura Ricardo Nunes, das tentativas de desmoralização dos trabalhadores por meio do corte de ponto e da força da extrema-direita, a categoria da educação municipal resistiu com firmeza. A conjuntura atual exige novos e maiores enfrentamentos, já que a Prefeitura prepara ataques ainda mais severos.
Em um contexto marcado pela crise do capitalismo e o avanço de políticas neoliberais especialmente nos países periféricos, a resistência dos trabalhadores da educação é fundamental para preservar o ensino público de qualidade.
Construindo Caminhos para uma Luta Ampliada
A greve, apesar das derrotas imediatas, plantou sementes importantes na disputa da opinião pública e mostrou que sozinho nenhum setor conseguirá derrotar as políticas econômicas neoliberais vigentes no país. A esperança está em uma mobilização social ampla, que una diferentes categorias e setores em defesa de uma organização mais justa da produção e da vida.
Já, o movimento Levante da Educação, impulsionado pelo MES e pela TLS, segue firme na resistência contra a mercantilização do trabalho e da educação pública municipal de São Paulo, preparando a categoria para os próximos desafios que virão.


