Uma jornada sonora pelo Brasil
“Usar o mapa do Brasil como opção de pesquisa de território.” Essa é a forma como Ana Vitória Nascimento, conhecida como DJ Navi ou DJ Nômade, descreve sua experiência de percorrer o país em busca de novas referências musicais. Natural do Jardim Ipiranga, uma das periferias da zona oeste de sorocaba, ela transformou, há dois anos, o nomadismo em uma ferramenta para construir sua identidade musical. Hoje, seus sets se definem como uma mistura “latino-diaspórica”, que mescla ritmos ancestrais africanos com as tradições indígenas e ibéricas presentes na América Latina.
Influências e o ‘rolê da vida nômade’
A relação de DJ Navi com a música começou na infância, influenciada pelo ambiente familiar. Ela recorda que, desde pequena, esteve próxima da música preta, especialmente do rap e da black music, que ouviam em casa. Sua família também promovia rodas de samba e funk, ritmos que marcam a cultura da periferia. Essa vivência despertou seu interesse em explorar e pesquisar mais profundamente diversas sonoridades.
Focada inicialmente na região Nordeste, Navi percorreu sete dos nove estados nordestinos de forma independente, carregando sua controladora e uma mochila de 10 quilos. Atualmente, residindo em Ilhéus, no litoral sul da Bahia, ela mantém seu trabalho CLT em home office na área de Marketing, o que lhe possibilita financiar essa jornada.
Essas viagens foram fundamentais para sua formação artística. Para ela, a cultura popular brasileira é vasta e não cabe em rótulos simples. “Não dá para definir que sou só DJ de funk, de brasilidade ou de rap”, explica, ressaltando sua intensa pesquisa. Uma experiência marcante foi a passagem pelo Maranhão, conhecido como capital nacional do Reggae. Lá, Navi se permitiu consumir e criar dentro da própria identidade, fortalecendo seu processo artístico.
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Fonte: triangulodeminas.com.br
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Fonte: diariofloripa.com.br
Pagode baiano: a influência que marca o set da DJ sorocabana
Entre os diversos ritmos que compõem seus sets, o pagode baiano foi o que mais impactou Navi. A liberdade presente na forma de cantar, dançar e consumir informação na Bahia chamou sua atenção. Segundo ela, na pista de dança local, a dança é uma expressão espontânea e essencial — quem não dança pode ser visto como um estranho. Essa experiência tem sido trazida para Sorocaba, onde aos poucos o público se acostuma com essa energia.
O sonho da DJ é realizar um baile em Sorocaba dedicado exclusivamente ao pagodão baiano, reunindo pessoas para dançar e celebrar essa cultura com intensidade. Essa perspectiva revela o desejo de aproximar a diversidade cultural brasileira, conectando periferias distintas por meio da música.
Desafios da cena artística independente em Sorocaba
Apesar das trocas culturais, DJ Navi enfrenta os desafios da cena local. Ela destaca a restrição de horários como um impedimento frequente para artistas e produtores. Muitos espaços culturais em Sorocaba precisam encerrar as atividades às 22 horas devido à pressão policial. Entre os locais citados, está o Bar da Augusta, que já relatou perseguições pelas autoridades nas redes sociais, além do episódio de violência registrado no carnaval deste ano no Tremoço, marcado pelo uso de gás de pimenta e lacrimogêneo.
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Fonte: tcheagora.com.br
Para Navi, a cultura é um espaço de resistência e descanso para a periferia, um direito fundamental de existir e celebrar. Ela aponta que, mesmo contribuindo para a economia local, os artistas enfrentam conservadorismos que limitam sua atuação. Outro obstáculo mencionado é o preconceito dentro da própria cena, onde músicas não-periféricas têm mais aceitação, enquanto artistas que investem em propostas alternativas enfrentam boicotes.
Olhar para o futuro com a força da comunidade
Ainda que o futuro pareça incerto, DJ Navi valoriza a conexão com o passado e a união da comunidade artística independente do interior. Ela lembra momentos difíceis em que sonhava com seu espaço sem recursos, mas também reconhece que a construção coletiva traz força e abre caminhos. Entre seus projetos, está a produção musical para lançar trabalhos autorais em plataformas de streaming, além de uma viagem marcada para a Chapada Diamantina, onde pretende buscar novas referências para a temporada de São João.
Enquanto explora a Chapada, ela segue trabalhando com gravações em Sorocaba, São José dos Campos e São Paulo para alimentar suas redes sociais (@adjnomade). Assim, DJ Navi segue conectando territórios e sonoridades, mantendo viva a cultura da periferia que carrega desde sua origem até suas viagens pelo Brasil.


