Fim de um espaço cultural emblemático
Na zona norte de São Paulo, o local que abrigava o tradicional Samba do Cruz será demolido nesta quarta-feira (29). A decisão judicial que autorizou a reintegração de posse da área viabiliza a construção do Parque Municipal Campo de Marte, encerrando uma longa disputa entre o Grêmio Esportivo Recreativo (GRE) Cruz da Esperança e a Prefeitura de São Paulo.
Fundada em 1958, a Comunidade Cruz da Esperança, situada no bairro Casa Verde, é reconhecida como um dos principais espaços da cultura negra na cidade. O terreno, além de sediar jogos de futebol de várzea, era palco do Samba do Cruz, evento que reunia centenas de pessoas nos finais de semana e se transformou em um ambiente de convivência, celebração da cultura popular e fortalecimento da identidade negra.
Impactos e resistência da comunidade
Desde março deste ano, a comunidade manifestava sua oposição ao projeto da prefeitura. Os dirigentes do GRE Cruz da Esperança alertavam que a concessão do parque à iniciativa privada impediria a continuidade do samba e restringiria o uso dos campos de futebol. Em entrevista à Alma Preta Jornalismo, o dirigente Fabio Henrique Januário Faldão ressaltou que a proposta representava o apagamento da história construída pela comunidade.
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A demolição simboliza o encerramento de uma luta contra a retirada da população do território. Em nota publicada nas redes sociais, o perfil do Samba do Cruz afirmou que, apesar da mobilização, não foi possível sensibilizar as autoridades para preservar a história e relevância cultural do local. “Infelizmente, nossa luta não foi suficiente para sensibilizar o prefeito Ricardo Nunes juntamente com a concessionária, que não deu a devida importância à preservação da nossa história, da nossa cultura e da nossa relevância da Cruz da Esperança para a comunidade. A demolição ficou prevista para o dia 29 de julho”, diz o comunicado.
Contexto mais amplo de desocupação
Essa demolição integra um processo maior de desocupação de clubes de várzea na região. Em março, a sede do Aliança da Casa Verde também foi demolida após reintegração de posse. Enquanto quatro associações aceitaram um acordo para deixar temporariamente a área e retornar após a construção do parque, o Cruz da Esperança recusou a proposta, pois entendia que ela inviabilizaria suas atividades culturais e esportivas.
Para residentes e frequentadores, o fim do Samba do Cruz é a perda de um espaço que, por mais de seis décadas, foi construído por gerações de famílias negras. O território é conhecido como a “Pequena África” paulistana, por abrigar forte presença de manifestações culturais afro-brasileiras, como samba, capoeira e religiões de matriz africana, consolidando-se como um patrimônio cultural vivo da cidade.


