A História Mágica de um Amor e do Teatro
Recentemente, Marieta Severo fez uma visita emocional ao apartamento do companheiro, Aderbal Freire-Filho (1941-2023), localizado no Leblon, Rio de Janeiro. Essa experiência serviu de inspiração para a “história mágica”, como a atriz define, que está na essência do livro “Teatro aberto: escritos de um diretor”, organizado pelo filósofo e crítico teatral Patrick Pessoa.
A publicação reúne textos do próprio Aderbal, abrangendo mais de três décadas de suas reflexões sobre teatro, política e criação artística. O lançamento está marcado para o próximo dia 8, no Teatro Poeirinha, uma data simbólica, pois Aderbal estaria completando 85 anos. Nesse espaço, que ele ajudou a idealizar junto a Marieta e Andréa Beltrão, repousam suas cinzas, simbolizando um ciclo de amor e arte.
Um Amor que Inspirou Reflexões Artísticas
Marieta e Aderbal viviam um relacionamento feliz, embora nunca tivessem morado juntos durante os 15 anos de namoro. “Era um acordo maravilhoso para duas pessoas que tinham casamentos anteriores”, reflete Marieta. No entanto, após um AVC em 2020, a atriz cuidou dele em casa, criando uma UTI particular na Gávea. Um ano depois, ao saber que ele não se recuperaria, começou a organizar os pertences do diretor, doando itens pessoais que Aderbal não poderia mais usar, como suas icônicas calças jeans e livros que ele tanto amava.
Na última visita ao apartamento, acompanhada por Nelson Manhães, Marieta encontrou algo inesperado. “Sobrou um papel aqui…”, disse Nelson ao abrir uma gaveta. Marieta ficou surpresa ao descobrir cinco folhas datilografadas que Aderbal havia escrito, um inventário de seus pensamentos e desejos referentes aos últimos quatro anos de sua vida. Era uma carta direcionada a ela, na qual expressava suas vontades sobre a organização de seus textos teatrais.
O Legado que se Torna Livro
Após digerir a revelação contida naquela carta, Marieta decidiu que era sua missão dar vida aos desejos de Aderbal. Ela admite que, apesar de muitos diálogos sobre seus projetos, a decisão de deixar uma carta em vez de discutir isso diretamente a deixou intrigada. “Era uma atitude tipicamente masculina”, brinca ela, refletindo sobre a dinâmica do casal.
Na carta, Aderbal revela que adiava o desejo de escrever um livro sobre teatro, mas acreditava que, de certa forma, já estava escrito. Ele pedia que seus textos, programas de peças e entrevistas fossem reunidos. Marieta imediatamente pensou em Patrick Pessoa para ajudar nesse projeto, dada sua relação próxima com Aderbal e sua experiência no teatro.
Juntos, eles moldaram “Teatro aberto: escritos de um diretor”, que vai além de um simples livro; é uma homenagem ao legado de Aderbal. Marieta sentiu que havia uma responsabilidade com a intimidade de seu companheiro, ponderando se deveria reproduzir partes da carta. No entanto, a troca com Patrick foi essencial para que ela se sentisse confortável em compartilhar suas memórias.
A Mágica do Teatro e a Preservação da Memória
O livro, que é dividido em cinco capítulos, oferece um panorama da trajetória e do pensamento de Aderbal, incluindo suas contribuições inovadoras à linguagem cênica e seu compromisso com a resistência cultural. Entre suas experiências mais marcantes está a fundação do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo (CDCE) e seu papel na Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT). A obra também reflete sobre a importância do teatro na vida pública brasileira.
As declarações de Aderbal sobre a função do diretor no teatro são divertidas: “É um eterno angustiado, um suicida potencial. Os diretores têm um ego enorme, mas ninguém sabe realmente o que fazem”, ele costumava dizer. Marieta revela que Aderbal sempre se sentiu invisível fora dos palcos, uma realidade que muitas vezes o levou a questionar sua identidade artística.
No lançamento do livro, que será conduzido pela diretora Bia Lessa, também será apresentado o site www.aderbalfreirefilho.com.br, uma plataforma dedicada à documentação da obra e legado do diretor. Para Marieta, esses projetos são um presente não apenas para ela, mas para Aderbal, perpetuando sua memória e sua vasta contribuição ao teatro brasileiro.
A essência de Aderbal, segundo Marieta, está presente em cada página do livro, repleto de amor e admiração. “Aderbal foi um mestre da admiração, sempre celebrando o trabalho dos outros e criando uma mágica única no palco”, conclui ela, destacando a importância de preservar a memória de um dos grandes nomes do teatro brasileiro.


