A Exposição “Reflexões” e a Busca pela Intimidade
No Dia Mundial da Arte, celebrado em 15 de abril, o g1 teve a oportunidade de entrevistar a artista e professora da Universidade de Sorocaba (Uniso), Laura Mello de Mattos. Ela é conhecida por suas pinturas realistas que utilizam o próprio reflexo em azulejos de banheiro e em objetos do cotidiano. O objetivo de Laura é investigar como o simples ato de “se ver” pode se transformar na maior forma de intimidade.
A artista apresenta na exposição intitulada “Reflexões” uma série de obras que abordam o conceito de reflexão a partir de sua própria imagem. As pinturas mostram azulejos de banheiro que refletem a figura da artista, simbolizando momentos de intimidade que, durante a pandemia, poderiam ser vivenciados apenas dentro do ambiente doméstico.
Objetos Cotidianos Transformados em Arte
A partir dessa nova perspectiva, a artista começou a observar elementos comuns do banheiro — como registros, válvulas e superfícies metálicas — e os transformou em temas centrais de suas obras. Dessa forma, Laura explora a relação entre repetição, isolamento e autopercepção.
“Sou pintora figurativa e venho desenvolvendo minha técnica há pelo menos 20 anos. Durante a pandemia, quando estivemos confinados em casa, a convivência familiar se intensificou. Passamos a circular sempre pelos mesmos ambientes e, no isolamento, o banheiro se tornou uma cápsula de proteção e um espaço de encontro consigo mesma. Essa vivência me fez observar objetos com características de espelhamento de uma maneira nova, criando um discurso sobre intimidade e privacidade”, explica a artista.
Foi através desse olhar que surgiram as primeiras obras da série, onde objetos do cotidiano ganharam novos significados no contexto do isolamento social. Instrumentos como o registro da ducha higiênica, o seletor de temperatura da torneira e a válvula de descarga deixaram de ser apenas itens funcionais, transformando-se em dispositivos de reflexão — tanto de forma literal quanto simbólica —, revelando a presença da artista através de imagens refletidas frequentemente captadas pelo celular.
O Processo Criativo e a Exploração dos Espaços Íntimos
As obras, elaboradas em tinta a óleo, demandam cerca de quatro meses para ficarem prontas. Esse longo processo permite que a artista trabalhe em mais de uma peça simultaneamente.
Laura destaca: “Iniciei uma série de pinturas relacionadas a esses objetos reais do cotidiano. Nesses reflexos, que muitas vezes capto com meu celular, vejo uma maneira de transmitir a privacidade para os meios digitais. Sempre há uma figura refletida nesses objetos, o que cria um compartilhamento de intimidades, especialmente intensificado durante a pandemia.”
Com a evolução de seu processo criativo, Laura ampliou seu foco para além dos banheiros, explorando outros espaços de convivência íntima, como mesas, e incorporando novos elementos à sua pesquisa visual. Talheres e superfícies reflexivas passaram a fazer parte de suas obras, reforçando a ideia de relações pessoais mediadas por reflexos e fragmentos.
A Influência da Viagem em Lisboa e as Novas Descobertas
Em 2025, durante uma residência artística em Lisboa, Portugal, Laura aprofundou ainda mais sua pesquisa ao buscar referências relacionadas à sua ancestralidade. Essa experiência a levou a explorar novas superfícies e formas de reflexão, ampliando ainda mais seu repertório artístico.
“Fui para Lisboa com a intenção de estudar as mesas portuguesas, ligadas à minha origem, mas o ambiente me revelou novos caminhos. Passei a me interessar pelos azulejos lisos de banheiro, onde o reflexo é sutil. A figura aparece quase como um vulto, uma presença quase espectral. Em alguns casos, a imagem é clara; em outros, mais difusa. Essa variação também se tornou parte dos meus interesses artísticos”, comenta.
Uma Trajetória Consolidada
Com uma carreira consolidada, Laura Mello de Mattos apresenta seus trabalhos desde 2006, tendo participado de exposições em galerias no Brasil e no exterior. Ao longo dos anos, a artista teve obras expostas em importantes espaços culturais, como Nova York e São Paulo, sendo reconhecida como uma figura proeminente na arte contemporânea.
“Exponho desde 2006 e já tive obras em Nova York e em várias galerias importantes de São Paulo. Minha produção ganhou força em 2021, quando fui premiada com uma exposição individual no Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba. Desde então, estive presente em feiras e exposições como a SP-Arte e a ArtRio, e atualmente sou representada por uma galeria em São Paulo”, conclui Laura.


