Reunião do Grupo de Trabalho Interministerial Avança na Indústria de Games
No dia 1º de setembro, o Ministério da Cultura (MinC) promoveu a 7ª reunião do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) voltado para o setor de games, durante a gamescom latam 2026, realizada em São Paulo. O evento reuniu representantes de diversos órgãos governamentais e especialistas para discutir diretrizes globais e estratégias para a regulamentação dos jogos digitais no Brasil.
A diretora de Formação e Inovação Audiovisual do MinC, Milena Evangelista, conduziu a pauta destacando a importância da colaboração entre as diferentes pastas envolvidas, que incluem a Agência Nacional do Cinema (Ancine), o Ministério da Justiça, o Ministério do Trabalho, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). “Nosso objetivo principal é elaborar um relatório que orientará a regulamentação do marco legal para jogos digitais no país. Este é um espaço que agrega diversas esferas do governo para abordar a complexidade do setor de games”, afirmou Evangelista.
Realizar a reunião dentro do ambiente da gamescom, segundo a diretora, é uma estratégia para fortalecer o diálogo com o mercado e com especialistas internacionais. “Estamos muito satisfeitos em promover esse encontro aqui, estreitando laços com as discussões globais sobre jogos”, complementou.
Modelos Internacionais de Fomento
A primeira mesa do encontro contou com a presença de especialistas de renome que atuam em políticas públicas para a indústria de games. Entre eles estavam Kristian Roberts, CEO da Nordicity, do Canadá; Jason Della Rocca, consultor de negócios e investidor na área, também canadense; e Thierry Baujard, cofundador da Spielfabrique, uma organização alemã dedicada a programas de aceleração.
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Durante sua apresentação, Kristian Roberts destacou a importância de modelos de apoio à indústria de jogos globalmente, que incluem incentivos fiscais e financiamento direto. Ele enfatizou que as transformações no setor, como a formação de equipes menores e o alcance global, demandam novas abordagens nas políticas públicas. “Programas de financiamento direto são cruciais para acelerar a produção de jogos e reforçar sua relevância cultural, além de gerar receitas internacionais”, explicou.
O consultor Jason Della Rocca trouxe à tona a questão da soberania da propriedade intelectual como um aspecto chave para o desenvolvimento da indústria brasileira. “Controlar suas próprias histórias e criações é mais vital do que nunca. A propriedade intelectual é o principal ativo para gerar valor econômico e reconhecimento no cenário global”, afirmou.
Ele ainda ressaltou que o modelo atual de mercado exige que os estúdios cultivem uma audiência desde as fases iniciais de produção, ressaltando assim a importância da relação direta com o público. “Construir uma comunidade é o que define o valor de um estúdio e sua sustentabilidade a longo prazo”, destacou.
Thierry Baujard compartilhou experiências provenientes da Europa que enfatizam a cooperação entre estúdios e a diversificação das estratégias de financiamento. Ele destacou tendências como coproduções internacionais e a integração entre games e outras formas de arte, como cinema, música e literatura. “A ideia é facultar aos estúdios a independência em relação aos publishers, criando estratégias mais equilibradas e sustentáveis”, esclareceu.
Desafios de Equidade e Acessibilidade na Indústria de Games
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Na segunda parte da reunião, o foco foi direcionado para questões estruturais, como as dificuldades de equidade, acessibilidade e territorialização da indústria de games no Brasil. A desenvolvedora de jogos e presidenta da Associação de Desenvolvedores de Jogos da Bahia (BIND), Lobba Mattos, apresentou uma análise crítica sobre as desigualdades que permeiam o ecossistema, principalmente em estados fora do eixo Rio-São Paulo.
A partir da sua experiência na Bahia, ela evidenciou desafios históricos em áreas como formação, acesso a financiamento e distribuição. “Os dados mostram um quadro de exclusão persistente: apenas 17% das empresas têm mulheres em posições de liderança, e a representação de pessoas negras e com deficiência é mínima, mesmo em um estado com tanta diversidade populacional”, comentou.
Lobba sublinhou que o desenvolvimento de jogos no Brasil está intimamente ligado ao acesso a infraestrutura tecnológica e à organização territorial. “Não existe política de games sem a inclusão de políticas urbanas. Precisamos falar sobre acesso à internet, equipamentos, capacitação e condições para permanência. Sem isso, a indústria não se sustenta”, enfatizou.
No que diz respeito à acessibilidade, o criador de conteúdo e fundador da ONG AbleGamers Brasil, Fabrício Ferreira, discorreu sobre como os jogos podem servir como uma ferramenta de inclusão, especialmente para pessoas com deficiência. “No ambiente dos games, não há preconceito ou barreiras. É um espaço de conexão antes de qualquer rótulo”, afirmou.
Ferreira criticou a visão reduzida que ainda persiste, de que videogames são apenas produtos infantis. “Essa visão ignora o impacto que os jogos têm, principalmente para quem encontra no universo dos games um meio de pertencimento e interação social. Foi por meio dos jogos que consegui meu empoderamento”, completou.
Por sua vez, Christian Rivolta Bernauer, presidente da AbleGamers Brasil, ressaltou como a acessibilidade impacta diretamente na qualidade de vida das pessoas. “Estamos falando de inclusão real. Não é só sobre o acesso ao jogo, mas sim à convivência, à autoestima e à participação social”, afirmou.
Uma Abordagem Integrada para o Futuro da Indústria de Games
Ao final do encontro, ficou claro que o desenvolvimento da indústria de games no Brasil exige uma abordagem integral que contemple fomento à produção, fortalecimento da propriedade intelectual, além de políticas de circulação e distribuição que também priorizem a inclusão, acessibilidade e a diminuição das desigualdades territoriais.
Os trabalhos do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) estão programados para continuar nos próximos meses, com a realização de um total de 12 encontros ao longo de 2026, e a elaboração de um relatório com diretrizes para a regulamentação e fortalecimento da indústria nacional de jogos digitais até julho do próximo ano.


